Identificação das características biomecânicas antes, durante e depois da ocorrência de episódios de congelamento de marcha em indivíduos com doença de Parkinson
Introdução: O congelamento da marcha, freezing of gait (FoG), na doença de Parkinson (DP) é uma falha episódica em iniciar ou manter a marcha, aumentando o risco de quedas e prejudicando a qualidade de vida. Embora a observação clínica permaneça como referência, sensores inerciais oferecem meios objetivos para caracterizar o fenômeno em nível de evento. Persistem lacunas sobre como as assinaturas biomecânicas se organizam antes, durante e após o FoG, especialmente em tarefas ecologicamente válidas (p. ex., giros e caminhadas em cenários domiciliares). Este trabalho buscou identificar características biomecânicas nesses períodos temporais, testando a utilidade de métricas simples e interpretáveis (razão de FoG no domínio da frequência e aceleração RMS no domínio do tempo) para subsidiar a detecção e a potencial predição do FoG. Métodos: Analisamos o conjunto de dados públicos do estudo DeFoG (Fundação Michael J. Fox), registrados em período “off” medicamentoso, em tarefas simulando ambientes domésticos e com verificação por vídeo dos episódios de FoG. Um acelerômetro tri-axial lombar captou sinais durante protocolos padronizados em casa. Eventos de duração média (2–5 segundos) foram analisados. Para cada episódio de FoG, foram analisados: 2 segundos de linha de base, 2 segundos antes do FoG, o próprio FoG e 2 segundos após o FoG. Extraíram-se (i) a raiz quadrada média da aceleração e (ii) a razão de FoG (faixa de “congelamento” de 3–8 Hz / faixa locomotora de 0,5–3 Hz), em três eixos (ântero-posterior, AP; médio-lateral, ML; vertical, V). A normalidade e a homogeneidade foram avaliadas por meio do teste de Shapiro–Wilk e do teste de Levene. Em seguida, aplicou-se ANOVA de medidas repetidas e, quando apropriado, comparações pós-hoc. Resultados: Trinta e cinco participantes com DP exibiram 279 FoGs, majoritariamente em Turning (n=201) e em Walking (n=75). A razão de FoG atingiu picos na janela de FoG. Em Turning, houve efeitos significativos em todos os eixos, com tamanhos de efeito de forte a muito forte, e as comparações pós-hoc mostraram que FoG > demais janelas. Em Walking, observou-se efeito forte em AP e moderado em V, sem significância em ML. O RMS complementou os achados: em Turning, aumentos pós-FoG em AP e V sugerem ajustes compensatórios; em Walking, RMS em AP e V já estava elevado no pré-FoG e durante o FoG, indicando instabilidade crescente. Esses padrões demonstram uma reconfiguração espectro-temporal vinculada ao evento e variações específicas por tarefa/eixo. Conclusão: A razão de FoG derivada do tronco discrimina robustamente a janela de FoG em giros e caminhada, o que sustenta sua aplicação para detecção em tempo real. As mudanças no RMS capturam dinâmicas de amplitude específicas por fase/tarefa, úteis para sinalização antecipatória. Em conjunto, recomenda-se uma arquitetura em camadas: gatilho preditivo (deriva espectral/amplitude) seguido de checagem confirmatória (razão de FoG), abrindo caminho para sistemas vestíveis de apoio em circuito fechado e de alta aplicabilidade clínica.