Ativação Neural da Memória Verbal de Curto Prazo em Crianças no Início da Alfabetização: Investigação com Espectroscopia Funcional no Infravermelho Próximo (fNIRS) em Tarefas de Repetição de Dígitos e em Paradigma Naturalístico
A memória verbal de curto prazo (VeSTM) é uma habilidade cognitiva fundamental para o sucesso na alfabetização, pois auxilia no processamento de informações fonológicas necessárias para a leitura. Seu desenvolvimento na infância está diretamente ligado ao amadurecimento do córtex pré-frontal. Considerando a influência do ambiente no neurodesenvolvimento, investigar como a VeSTM se relaciona com nível socioeconômico e outros fatores sociodemográficos, durante o período crítico de alfabetização permite uma compreensão mais abrangente do desenvolvimento infantil. Assim, o presente estudo transversal (etapa pré-intervenção de um projeto longitudinal) teve como objetivo avaliar o perfil cognitivo e sociodemográfico de crianças do 1º ano do ensino fundamental, bem como investigar o padrão de ativação hemodinâmica do córtex pré-frontal durante uma tarefa clássica (repetição de dígitos) e uma com paradigma naturalístico (escuta de história infantil), via espectroscopia funcional do infravermelho próximo (fNIRS). Participaram 126 crianças (idade média de 5,97 anos) de 14 escolas públicas de Cambé, Paraná (CAAE: 88208918.4.0000.5594). A metodologia abrangeu a caracterização do perfil sociodemográfico e do ambiente de literacia familiar, além da aplicação de testes cognitivos para avaliar a memória de curto prazo, consciência fonológica e leitura. O mapeamento neural via fNIRS foi conduzido durante a execução de uma tarefa tradicional (dígito span) e de uma tarefa com estímulos naturalísticos baseada na escuta e evocação da história infantil “Camilão, o Porco Comilão”. Os resultados comportamentais mostraram que, na alfabetização inicial, a VeSTM e a CF atuam juntas como um “bloco único”. Um ambiente familiar rico em estímulos literários foi associado a um melhor reconhecimento de letras pelas crianças. Em nível neurofisiológico, a tarefa de dígito span ativou áreas frontopolar e orbitofrontal de forma mais restrita, enquanto uma tarefa de estímulos naturalísticos permitiu mapear dinamicamente o recrutamento cortical bilateral. Foram ativadas regiões tanto do hemisfério esquerdo (área de Broca - parte triangular) quanto do hemisfério direito (córtex pré-frontal dorsolateral e frontopolar). Apesar da ausência de correlações diretas entre ativação hemodinâmica e desempenho cognitivo ou nível sociodemográfico, o estudo valida o uso do fNIRS com paradigmas naturalísticos, oferecendo evidências do cérebro infantil em seu ecossistema educacional real.