Caboclos de Vigília: Trabalho, cotidiano e resistências dos Trabalhadores e Trabalhadoras Nacionais da Freguesia de São Bernardo (1850-1883)
Esta tese investiga o cotidiano, o trabalho e as formas de resistência de trabalhadores e trabalhadoras nacionais da Freguesia de São Bernardo entre 1850 e 1883, território que abrangia grande parte da atual região do ABC Paulista. Partindo da compreensão de que a formação da classe trabalhadora brasileira não se restringe ao trabalhador livre e assalariado industrial do final do século XIX, o estudo busca resgatar experiências de grupos populares que receberam atenção limitada na historiografia regional. A pesquisa insere-se em uma perspectiva que entende a classe trabalhadora como resultado de um processo histórico de constituição social, marcado por relações, experiências e práticas compartilhadas entre diferentes grupos subalternos.
O trabalho problematiza as narrativas históricas e memoriais predominantes sobre o ABC Paulista, tradicionalmente centradas na imigração europeia, na implantação das ferrovias e no desenvolvimento industrial da região. Influenciadas por interpretações produzidas desde as primeiras décadas do século XX, essas narrativas frequentemente atribuíram aos imigrantes e aos agentes da modernização o protagonismo na formação regional, relegando os trabalhadores nacionais a uma posição secundária ou invisibilizada. Em contraposição, esta pesquisa procura compreender quem eram esses sujeitos, como viviam, trabalhavam e construíam suas estratégias de sobrevivência e resistência diante das transformações econômicas, territoriais e sociais ocorridas na segunda metade do século XIX.
A partir da análise de suas experiências cotidianas, das relações estabelecidas com o território e das mudanças provocadas pela chegada das ferrovias e pela criação dos núcleos coloniais, busca-se evidenciar o papel ativo desses trabalhadores e trabalhadoras na construção histórica da região. Dessa forma, a tese contribui para ampliar a compreensão sobre a formação da classe trabalhadora no ABC Paulista e no Brasil, incorporando sujeitos e experiências frequentemente marginalizados pelas interpretações tradicionais da história regional.