DEPOIS DA PRISÃO, O MERCADO: relações de trabalho no pós-cárcere e racionalidade neoliberal da “reintegração social”
A passagem pela prisão continua a repercutir na vida em liberdade. Para quem deixa o cárcere, o retorno envolve reconstruir vínculos, buscar meios materiais de sustentação, enfrentar o estigma penal e reorganizar formas de pertencimento em contextos marcados por desigualdades. No estado de São Paulo, que concentra o maior contingente prisional do país e reúne diferentes iniciativas voltadas à inclusão social e laboral no pós-cárcere, o trabalho se apresenta como uma via recorrente pela qual a promessa de “ressocialização” é formulada, justificada e operacionalizada. Diante desse cenário, esta pesquisa tem como objetivo analisar a inserção de pessoas sobreviventes do cárcere no mercado de trabalho na região metropolitana de São Paulo, à luz da racionalidade neoliberal. Investiga-se como esse processo é atravessado por discursos e práticas institucionais que mobilizam exigências de empregabilidade, responsabilização individual, empreendedorismo e adaptação ao mercado. O estudo adota abordagem qualitativa, combinando análise documental de marcos normativos e institucionais sobre o tema, e entrevistas semiestruturadas com gestores, representantes e pessoas atendidas por organizações públicas e não governamentais voltadas à inserção social no pós-pena, além de registros de campo. Busca-se analisar como diferentes atores atribuem sentidos ao trabalho, à conduta e à reintegração social, produzindo expectativas de disciplina, autogestão e empreendedorismo de si, bem como compreender de que modo desigualdades de gênero, raça e classe são reconhecidas, silenciadas ou administradas nessas práticas. Ademais, o estudo examina experiências coletivas que tensionam o enquadramento mercadológico do contexto pós-prisional. Desse modo, a pesquisa visa contribuir para o debate sobre políticas públicas, trabalho e justiça social na vida em liberdade.