AVALIAÇÃO DA PRODUÇÃO DE BIOMETANO POR MEIO DE DIGESTÃO ANAERÓBIA DE LICOR DE PENTOSE DO BAGAÇO DA CANA-DE-AÇÚCAR
O etanol de segunda geração (E2G) produzido a partir do bagaço de cana-de-açúcar constitui uma alternativa para a ampliação da eficiência do setor sucroenergético. Entretanto, o pré-tratamento da biomassa lignocelulósica gera o licor de pentose, subproduto líquido produzido em volumes estimados entre 2,0 e 2,5 litros por litro de E2G, caracterizado por elevada carga orgânica e potencial poluidor. Nesse contexto, a digestão anaeróbia apresenta-se como uma rota tecnológica para o tratamento desse efluente, possibilitando a recuperação energética na forma de biometano. Neste trabalho, o licor de pentose foi produzido em escala laboratorial, caracterizado físico-quimicamente e avaliado quanto ao seu potencial metanogênico por meio de ensaios de Potencial Bioquímico de Metano (BMP), conduzidos em reatores automáticos do tipo AMPTS II, operados por 26 dias sob condições anaeróbias controladas. O efluente apresentou demanda química de oxigênio inicial de 14631 ± 19,5 mg O₂·L⁻¹, com predominância de açúcares fermentescíveis, especialmente xilose (3,8 g·L⁻¹). Os resultados indicaram que o desempenho metanogênico foi dependente da carga orgânica aplicada, sendo observadas maiores produções específicas e volumétricas de metano nos reatores operados com maiores concentrações de substrato. A produção específica de biometano atingiu valores superiores a 120 mL CH₄·g⁻¹ de sólidos voláteis, correspondendo a aproximadamente 24% do potencial estequiométrico teórico, enquanto a maior produção volumétrica acumulada alcançou 4791,15 NmL de CH₄ ao final do período experimental. Observou-se remoção significativa da carga orgânica, evidenciando a conversão parcial da matéria orgânica disponível, apesar da presença de compostos potencialmente inibidores oriundos do pré-tratamento lignocelulósico. A caracterização do digestato indicou estabilidade do processo anaeróbio e potencial para aplicação como biofertilizante. De modo geral, os resultados demonstram a viabilidade técnica da digestão anaeróbia do licor de pentose para a produção de biometano, fornecendo subsídios para sua integração em biorrefinarias do setor sucroenergético e para a valorização energética de resíduos agroindustriais.