Perturbações no transporte público na pandemia: interdependência de infraestruturas e impactos sobre mulheres de baixa renda em são paulo
As medidas de lockdown instituídas pelos governos durante a pandemia de Covid-19
afetaram o funcionamento dos sistemas de transportes públicos desencadeando efeitos
em cascata sobre outros sistemas de infraestruturas críticas interligados. A pesquisa
explora os efeitos dessas medidas sobre o acesso de mulheres - em situação de
vulnerabilidade da região central e da Zona Leste de São Paulo - a sistemas de
infraestruturas essenciais para manutenção da vida cotidiana. O estudo parte do cenário
de mudanças nas operações do setor de transporte público durante o isolamento social,
consideradas aqui como ponto inicial da perturbação em outros sistemas de
infraestruturas críticas. A partir dessa condição, os setores de alimentação e nutrição,
saúde, educação e assistência social são analisados em relação a sua dependência. Tais
relações são analisadas a partir das experiências e práticas dos sujeitos que utilizam e
acessam esses serviços, e não dos componentes técnicos e operacionais que estruturam
esses sistemas. Nesse sentido, a análise é conduzida a partir do uso social da
infraestrutura, não da engenharia dos sistemas. Busca-se, assim, compreender de que
maneira as alterações na operação do sistema de transporte público afetaram o acesso
das pessoas às infraestruturas críticas. A metodologia da pesquisa é composta pelo
levantamento dos marcos regulatórios e notícias do período da pandemia, pelo
mapeamento dos efeitos em cascata desencadeados pelas alterações do sistema de
transporte sobre os sistemas de ICs estudados, entrevistas e workshop com especialistas
das infraestruturas para validação das relações identificadas com o setor de transportes e
por rodas de conversas e entrevistas com mulheres em situação de vulnerabilidade.
Nesse sentido, o estudo busca contribuir para compreensão dos impactos
desproporcionais de um evento extremo, como a pandemia de Covid-19, sobre a vida de
mulheres em situação de vulnerabilidade. Ao evidenciar esses impactos, a pesquisa abre
espaço para a formulação de políticas de mobilidade mais equitativas, capazes de
reconhecer as desvantagens historicamente vivenciadas por grupos socialmente
vulnerabilizados, especialmente em contextos de desastres.