Reestruturação urbana, gentrificação e seletividade racial no território da Operação Urbana Água Espraiada: uma análise a partir dos dados censitários (2001–2022)
A partir da década de 1970, o avanço da financeirização redefiniu o papel das cidades, que passaram a ocupar posição central nas estratégias do capital, tensionando sua função como espaço de produção coletiva e bem-estar social. No contexto brasileiro, esse processo aprofunda desigualdade socioespacial historicamente construída, onde as classes médias e altas tendem a se apropriar das áreas de melhor infraestrutura urbana, enquanto a população de baixa renda permanece concentrada em áreas periféricas e menos favorecidas. Em São Paulo, essas desigualdades também assumem uma dimensão racial, uma vez que a população negra se encontra majoritariamente concentrada nas periferias da cidade, enquanto a população branca se distribui de forma mais homogênea. Nesse contexto, o presente trabalho analisa de que maneira a Operação Urbana Consorciada Água Espraiada se articula ao processo de gentrificação que contribui para a reprodução e o aprofundamento da segregação socioespacial e racial, através do discurso da modernização e do desenvolvimento urbano. Metodologicamente, a pesquisa combina revisão bibliográfica crítica, fundamentada nos debates sobre gentrificação, produção do espaço urbano e raça, com a análise de dados secundários dos Censos Demográficos do IBGE de 2000, 2010 e 2022. A partir da leitura espacial da população distribuída segundo raça/cor, renda e escolaridade, utilizando setores censitários e mapas temáticos formulados em Sistemas de Informação Geográfica, o trabalho busca evidenciar tendências e permanência na produção desigual do espaço urbano no perímetro da Operação Urbana Consorciada Água Espraiada, sem a pretensão de estabelecer relações causais diretas.