A CONSTITUIÇÃO HISTÓRICA DA OBJETIVIDADE CIENTÍFICA: UMA PERSPECTIVA ARQUEOGENEALÓGICA
A presente tese investiga a constituição histórica da objetividade científica e explicita o conceito de arqueogenealogia como uma perspectiva metodológica destinada à compreensão das condições de formação, validação e transformação dos saberes científicos. Partindo da epistemologia histórica de Thomas Kuhn e do pensamento filosófico de Michel Foucault, a pesquisa desloca o foco de uma leitura meramente comparativa entre esses autores para a análise do problema filosófico da objetividade científica, compreendida como resultado de processos históricos, epistemológicos, discursivos e institucionais. Inicialmente, examinam-se os principais conceitos da epistemologia histórica kuhniana, evidenciando sua contribuição para uma compreensão descontínua do desenvolvimento científico. Em seguida, analisam-se as noções centrais da arqueologia e da genealogia foucaultianas, destacando seu papel na investigação das condições históricas de constituição e legitimação dos saberes. Com base nesse percurso, sustenta-se que arqueologia e genealogia não constituem momentos metodológicos rigidamente separados na obra de Foucault, mas dimensões analíticas articuladas quando o objetivo consiste em compreender historicamente a produção do conhecimento. A partir dessa interpretação, a tese explicita a arqueogenealogia não como uma terceira fase do pensamento foucaultiano, nem como uma simples síntese entre arqueologia e genealogia, mas como uma reconstrução metodológica, de inspiração foucaultiana, voltada à investigação da constituição histórica da objetividade científica. O diálogo estabelecido entre Kuhn e Foucault permite compreender paradigma e episteme como operadores analíticos distintos, porém convergentes, na análise das condições de possibilidade, estabilização e transformação do conhecimento científico. A investigação sustenta que a objetividade científica não decorre de fundamentos universais ou exclusivamente internos à racionalidade científica, mas resulta de processos historicamente situados nos quais práticas discursivas, comunidades científicas, instituições, relações de poder e critérios de validação participam da produção do conhecimento. Desse modo, a arqueogenealogia configura-se como uma perspectiva metodológica capaz de ampliar a investigação filosófica da ciência, ao proporcionar uma compreensão historicamente situada da constituição da objetividade científica e de seus processos de legitimação e transformação.