Entre Heidegger e Jünger: o estatuto ontológico-histórico do trabalho na modernidade técnica
Esta tese investiga o estatuto ontológico-histórico do trabalho na modernidade técnica a partir do confronto entre Martin Heidegger e Ernst Jünger. Parte-se da hipótese de que o trabalho moderno não pode ser compreendido de modo suficiente apenas como categoria econômica, sociológica ou moral: ele deve ser articulado à técnica, à linguagem, às configurações históricas do humano e à inteligibilidade de época. A pesquisa reconstrói, primeiro, o percurso de Heidegger da analítica existencial à questão da técnica, mostrando como o trabalho pode ser reinscrito no horizonte do Gestell e da transformação do ente em disponibilidade. Em seguida, examina Jünger, sobretudo A mobilização total, O trabalhador, Sobre a dor e Sobre a linha, destacando o trabalhador como figura epocal no diagnóstico afirmativo da mobilização técnica do mundo. No núcleo da tese, sustenta-se que mobilização total e Gestell iluminam dimensões correlatas, mas não equivalentes, de um campo histórico parcialmente convergente: Jünger descreve a configuração morfológico-histórica da mobilização, enquanto Heidegger interroga o modo ontológico-histórico de desvelamento que torna possível a disponibilidade técnica. O confronto evidencia, assim, uma diferença de nível entre a morfologia jüngeriana da forma e a crítica heideggeriana da técnica, sem reduzir Jünger a posição meramente preparatória. Por fim, realiza-se uma transposição metodologicamente controlada ao contemporâneo, abordando plataformização, gestão algorítmica, precarização, empreendedor de si e, em recorte brasileiro limitado, a relação entre trabalho, técnica e educação. Conclui-se que o trabalho, pensado entre Heidegger e Jünger, constitui uma chave conceitual decisiva para compreender a modernidade técnica e alguns de seus desdobramentos atuais.