A virada ético-política de Judith Butler: entre crítica e responsabilidade
Neste texto de qualificação investigamos o debate em torno da chamada “virada ética” na obra de Judith Butler, examinando como seus escritos a partir dos anos 2000 apresentam um deslocamento interno importante em relação à fase inicial de sua teoria. Para tanto, partimos da reconstrução da concepção de subjetividade negativa desenvolvida nos anos 1990, especialmente a partir das interlocuções com Nietzsche, Foucault e Freud em A vida psíquica do poder, analisando como categorias como sujeição, melancolia e abjeção estruturam uma crítica à normatividade e à ontologia do sujeito soberano. Em seguida, examinamos como, em Vida precária e Relatar a si mesmo, a incorporação das noções de luto, vulnerabilidade e responsabilidade passa a ocupar lugar central em sua teoria. Defendemos que não há ruptura teórica entre esses momentos, mas um deslocamento significativo, no qual a ética deixa de operar apenas como implicação imanente à crítica ontológica da subjetivação para assumir uma formulação mais explícita de ontologia ética relacional, com consequências normativas e políticas. Ao analisar especialmente o diálogo de Butler com Lévinas, buscamos demonstrar que a dimensão ético-política emerge como aprofundamento das tensões internas de sua teoria da sujeição, articulando crítica, normatividade e responsabilidade sem abandonar a análise das relações de poder.