Entre o dito e o não dito: Educação Sexual, controle discursivo nos Anos Iniciais e masculinidades na docência
A Educação Sexual vem sendo considerada um aspecto fundamental na formação educacional da sociedade. Parte-se da compreensão de que constitui uma dimensão da formação humana e envolve aspectos sociais, culturais, históricos, afetivos e relacionais, não se restringindo às dimensões biológicas e higienistas. Nesse contexto, as práticas escolares são atravessadas por diferentes discursos produzidos por docentes, instituições, documentos curriculares, famílias e sociedade. A pesquisa fundamenta-se na perspectiva de Michel Foucault, especialmente nas discussões sobre discurso, poder, silêncio, controle e resistência. O estudo tem como objetivo analisar, a partir da perspectiva foucaultiana, como os discursos relacionados à Educação Sexual e o controle discursivo atravessam as práticas pedagógicas nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental e, para além desse contexto, discutir como as expressões das masculinidades presentes nos discursos docentes se relacionam com as práticas pedagógicas vinculadas à Educação Sexual. De abordagem qualitativa e organizada no formato multipaper, a pesquisa reúne quatro artigos e um capítulo de livro, desenvolvidos a partir de revisão sistemática da literatura, levantamento bibliográfico e análise documental, utilizando a Análise de Conteúdo de Bardin. Foram analisadas produções científicas e documentos relacionados à Educação Sexual, às práticas pedagógicas, à BNCC, aos discursos docentes e às masculinidades. Os resultados preliminares indicam que os docentes reconhecem a importância da Educação Sexual, mas também apresentam insegurança, dificuldades e necessidade de formação para abordar o tema. Observa-se a permanência de práticas relacionadas predominantemente ao corpo, à saúde, à higiene e aos aspectos biológicos, evidenciando tensões entre diferentes formas de compreender e desenvolver a Educação Sexual. A análise da BNCC evidencia a ausência ou pouca explicitação de determinados termos relacionados à sexualidade e ao gênero nos Anos Iniciais, enquanto o corpo aparece associado principalmente à saúde, aos cuidados e à higiene. Também são identificadas diferentes expressões de masculinidades nos discursos docentes, incluindo referências a modelos hegemônicos, autoridade e papéis tradicionais. Por fim, as considerações iniciais revelam que as práticas pedagógicas são produzidas no entrecruzamento de diferentes discursos e relações de poder. Nesse processo, o silêncio também participa da produção e controle dos discursos e nas relações de poder é possível identificar movimentos de resistência e ressignificação das práticas pedagógicas.