GÊNERO, RAÇA E PÓS-GRADUAÇÃO NA CIÊNCIA: UM ESTUDO SOBRE A PRESENÇA DE MULHERES NEGRAS NOS CURSOS DE MESTRADO E DOUTORADO NA UNIVERSIDADE FEDERAL DO ABC
O acesso à educação e as desigualdades relacionadas ao processo formativo com recorte de gênero raça já vem sendo discutidas por vários autores. O acesso de estudantes negros em instituições superiores está relacionado à qualidade da educação durante a trajetória escolar, além disso, menores condições financeiras para a manutenção destes acabam sendo obstáculo adicional para o ingresso e permanência na academia. A presente pesquisa tem como objetivo identificar o gênero e a raça na ciência dos ingressos nos cursos de mestrado e doutorado dos programas de Pós-graduação da Universidade Federal do ABC. Assim, a tese está sendo elaborada na “modalidade multipaper” e é composta nesse momento por três artigos: o primeiro descreve uma revisão sistemática da literatura sobre a presença de mulheres negras na pós-graduação em ciência no Brasil entre os anos de 2015 e 2025, o segundo e analisa a evolução temporal da distribuição de estudantes do Programa de Pós-Graduação em Ensino e História das Ciências e da Matemática (PECHM) da Universidade Federal do ABC (UFABC), considerando os recortes de nível acadêmico (Mestrado e Doutorado), raça, gênero e ano de ingresso entre 2011 e 2025 e o terceiro artigo apresenta o delineamento metodológico da pesquisa empírica, adotando uma abordagem qualitativa, de caráter exploratório e descritivo, fundamentada na pesquisa narrativa. O estudo busca compreender as trajetórias acadêmicas de mulheres negras na pós-graduação em ciência a partir de suas experiências e significados atribuídos ao percurso formativo. A principal técnica de produção de dados será a entrevista narrativa semiestruturada, que articula a liberdade da narrativa dos participantes com a exploração de temas previamente definidos, por meio de um roteiro flexível contemplando aspectos como acesso à pós-graduação, experiências de racismo, sexismo e exclusão institucional, construção do pertencimento e da identidade acadêmica, estratégias de permanência e resistência, redes de apoio e expectativas profissionais em relação ao papel da universidade. A análise dos dados será conduzida com base na análise temática narrativa proposta por Jovchelovitch e Bauer (2002), estruturada em cinco etapas, possibilitando a identificação e interpretação dos temas centrais emergentes das narrativas e a compreensão das experiências vividas pelas participantes. Os dados apontam para uma persistente sub-representação de mulheres negras nesses programas, refletida em dados como a presença de apenas 2,5% de docentes negras em áreas científicas e 0,52% nas pós-graduações em Física. As principais barreiras identificadas incluem o racismo institucional, o sexismo, a ausência de políticas de acolhimento, a escassez de mentoria e apoio financeiro, além do isolamento social e acadêmico. Ainda há, uma predominância de estudantes brancos no mestrado, especialmente mulheres, com crescimento expressivo até 2021. Observa-se também aumento progressivo da diversidade racial e de gênero no doutorado a partir de 2017, embora ainda com presença reduzida de pessoas negras e indígenas. A metodologia Em síntese, a tese irá contribuir para a compreensão das desigualdades de gênero e raça na pós-graduação em ciência ao evidenciar os avanços e as persistentes barreiras à participação de mulheres negras, oferecendo subsídios para a formulação e o fortalecimento de políticas de equidade no ensino superior e na produção científica.