Questões sociocientíficas no Ensino de Ciências e o currículo do Ensino Fundamental da rede municipal de Peruíbe e Itanhaém- SP
A escola constitui um espaço social fundamental para a formação dos sujeitos, no qual diferentes culturas, valores e perspectivas se encontram e influenciam a construção do indivíduo. O currículo escolar, entendido como território de disputa ideológica, expressa interesses sociais distintos e orienta os saberes legitimados pela instituição escolar. Embora documentos normativos defendam a promoção da alfabetização e a formação de cidadãos críticos, cada escola reelabora o currículo conforme sua própria visão de mundo, o que pode limitar a abordagem de temas que questionem estruturas sociais. Nesse contexto, o ensino de Ciências revela-se especialmente relevante por seu potencial de desenvolver o senso crítico e favorecer a compreensão das relações entre ciência, tecnologia, sociedade e ambiente (CTSA). As Questões Sociocientíficas (QSC), temas contemporâneos e controversos vinculados ao conhecimento científico, constituem um caminho eficaz para promover argumentação, reflexão ética e aprendizagem significativa. No entanto, a inserção das QSC na prática docente ainda encontra obstáculos, como lacunas formativas e ausência desses temas nos currículos. Este trabalho tem como objetivo analisar como as QSC estão presentes no currículo de Ciências do Ensino Fundamental da rede pública das cidades de Peruíbe e Itanhaém. Busca-se identificar como esses temas são abordados em sala de aula e qual é a percepção de currículo dos docentes dessas redes. A pesquisa, de abordagem qualitativa, envolve análise dos documentos curriculares, análise das habilidades previstas no currículo e entrevista com professores. Foram coletados dados dos Planos Municipais de Educação das duas cidades e das habilidades do Currículo Paulista e do Currículo Educaita. Quatro professores das redes estudadas foram entrevistados e os dados das entrevistas analisados pela pesquisadora com suporte de uma ferramenta analítica desenvolvido por pesquisadores de QSC. Os resultados apresentam possibilidades para o ensino das habilidades dos dois currículos com uma abordagem de QSC, em cada ano de ensino. As entrevistas demonstram que os professores trabalham aspectos sociocientíficos em suas aulas, quando possuem maior autonomia para atuar no currículo. Conclui-se que a efetivação das QSC como eixo estruturante depende da garantia da autonomia pedagógica e de suporte estrutural aos docentes, superando visões tecnicistas para que a educação científica atue, de fato, como instrumento de justiça social e transformação da realidade local.