METACOGNIÇÃO E AS REDES CEREBRAIS ENVOLVIDAS DURANTE UMA ATIVIDADE DE QUÍMICA E POSSÍVEIS CONEXÕES
O presente estudo teve como objetivo investigar possíveis relações entre regiões do cérebro ativadas (ou não) e os incidentes metacognitivos manifestados por estudantes de graduação, durante uma atividade de Química. Com abordagem predominantemente qualitativa e caráter exploratório, esta dissertação foi organizada no formato Multipaper, sendo composta por quatro artigos.
Inicialmente, foi realizada uma revisão da literatura em âmbito nacional, por meio da plataforma CAPES, com o objetivo de identificar estudos que relacionassem Metacognição, Neurociência e o ensino de Química. Os resultados evidenciaram uma carência de pesquisas que estabelecessem relações mais aprofundadas entre a metacognição e a atividade cerebral no contexto educacional.
Diante disso, realizou-se uma segunda revisão da literatura, desta vez em âmbito internacional. Para tornar a busca mais específica quanto à atividade cerebral, optou-se por substituir o termo “Neurociência” por NIRS ou fNIRS (Functional Near-Infrared Spectroscopy), técnica utilizada na coleta de dados e que tem se mostrado promissora em investigações naturalísticas no mapeamento cerebral. Os resultados desta segunda revisão também indicaram escassez de estudos voltados ao ensino de Química, o que reforçou a relevância desta pesquisa. Além disso, observou-se que investigações com fNIRS associadas à metacognição na educação ainda são recentes e exploratórias.
Com base nessas revisões, foi estruturada a coleta de dados, realizada a partir de uma atividade de Química Geral com enfoque nos níveis representacionais. Os participantes eram estudantes de graduação da Universidade Federal do ABC, que estavam concluindo ou já haviam concluído a disciplina de Transformações Químicas. A coleta ocorreu em duplas, nas quais os participantes utilizaram uma touca associada ao fNIRS, permitindo a captação simultânea dos sinais hemodinâmicos entre os pares.
A atividade consistiu em cinco cartões com questões objetivas, que deveriam ser respondidas mediante discussão em dupla, com base no protocolo “think aloud”, enquanto os sinais hemodinâmicos eram coletados. Ao final da atividade, os participantes responderam a um formulário com questões semiabertas, com o objetivo de identificar suas percepções em relação à atividade realizada. Ao analisar as percepções dos estudantes, observou-se que 80% dos participantes indicaram dificuldades e estratégias para superar tais dificuldades, o que pode sugerir na discussão dos dados a ocorrência de experiências metacognitivas por parte dos estudantes, por externalizar o que sabiam e o que não sabiam, bem como as estratégias adotadas para o desenvolvimento da tarefa.
Por fim, o quarto artigo apresenta a análise dos dados, evidenciando a frequência dos incidentes metacognitivos e suas contribuições para a aprendizagem em Química, bem como possíveis relações principalmente da ativação da região da junção temporoparietal (TPJ) especialmente em momentos de monitoramento social e mudanças na construção do conhecimento. Também foram observados padrões de ativação e não ativação em diferentes regiões cerebrais, como as regiões somatossensorial direita e pré-motora bilateral, dependendo do tipo de incidente metacognitivo analisado.
Em síntese, como considerações finais dos quatro artigos, verificou-se que atividades em pares apresentam potencial em favorecer a ocorrência da metacognição, e que os incidentes metacognitivos podem contribuir para a regulação e reconstrução do conhecimento. Ademais, as evidências neurais indicam que apesar de exploratório e incipiente é possível investigar a metacognição a partir do mapeamento cerebral, e estabelecer um campo de diálogo com a Neurociência, contribuindo no campo da educação e aprendizagem.