Transição da Vigília à Inatenção em Motoristas: Indicadores Faciais da Degradação Atencional e sua Validação por EEG e EOG
INTRODUÇÃO. A ausência ou o atraso de reação do condutor é a causa principal
de cerca de um terço dos sinistros nas rodovias federais brasileiras. Esse comportamento
é a marca da inatenção que precede o sono ao volante. O eletroencefalograma (EEG)
é a referência para caracterizar essa transição, porém é inviável como instrumento de
monitoramento cotidiano, pois exige eletrodos, preparação e supervisão. Os sistemas por
câmera usam indicadores faciais calibrados contra escalas subjetivas, e quase não se sabe
quais deles refletem a transição registrada pelo EEG, nem com quanta antecedência. A
hipótese é que a degradação atencional induzida por privação de sono se manifesta em
indicadores faciais que acompanham a privação, precedem o lapso de resposta e coincidem
com os marcadores eletrofisiológicos. O objetivo é identificar esses indicadores, medir
sua antecedência e verificar se o EEG e o eletro-oculograma (EOG) confirmam o estado
sinalizado. MATERIAIS E MÉTODOS. Os dados de EEG de cinco canais, EOG e
vídeo facial foram extraídos da base pública DROZY, com 14 sujeitos, três sessões de
Psychomotor Vigilance Task (PVT) sob privação de sono crescente. A malha facial foi
validada contra anotação manual e contra o EOG, e dela derivaram indicadores de oclusão
palpebral, nictação, olhar e postura cefálica. Marcadores da transição, tais como alfa, teta,
movimentos oculares lentos, fusos e complexos K foram definidos em relação à linha de
base de alerta de cada sujeito. Resposta à privação, antecedência e acoplamento face–EEG
foram estimados por modelos mistos. RESULTADOS. A malha reproduziu a anotação
manual (erro mediano de 3,5% da distância interocular) e o EOG (F1 de 0,94 na nictação).
Nove indicadores faciais e quatro marcadores de EEG acompanharam a privação, com o
efeito mais forte na dinâmica da nictação (rrm até 0,75). Oclusão palpebral e pitch da
cabeça anteciparam o lapso em 6 a 14 s. A razão amplitude/velocidade da nictação foi o
único indicador acoplado a um marcador de EEG (rrm = 0,69 com a intrusão de alfa) e
precedeu o primeiro surto de teta em cerca de dois minutos. Movimentos oculares lentos
foram raros e complexos K, ausentes. CONCLUSÃO. A hipótese foi confirmada para a
fase inicial da transição: a dinâmica palpebral acompanha a privação, antecipa o lapso e é
a assinatura facial acoplada ao EEG, de modo que a câmera pode sinalizar a inatenção
antes do evento crítico. Os estágios avançados não puderam ser verificados nas sessões
de 10 minutos. Com quatro dos cinco critérios de continuidade atendidos, propõe-se a
segunda etapa, em simulador de direção com EEG de 29 canais.