EFEITOS NA ATIVIDADE NEURAL APÓS EXPOSIÇÃO AGUDA OU CRÔNICA COM
AYAHUASCA: evidências experimentais e revisão da literatura em roedores e humanos
A ayahuasca é uma bebida de origem indígena amplamente utilizada por diversos
grupos/etnias. Tradicionalmente produzida pela decocção das folhas do arbusto Psychotria
viridis e o lenho do cipó Banisteriopsis caapi, a bebida é rica em alcaloides como a
N-N-dimetiltriptamina, agonista 5-HT, e beta-carbolinas harmina, harmalina e
tetrahidroharmina. Nossos métodos empíricos incluíram a caracterização bioquímica de nove
formulações de ayahuasca, seguida de tratamento in vivo agudo (n=25) ou crônico durante 30
dias (n=15) com ayahuasca ou veículo. Decorridas 2 horas após o último tratamento, os
animais foram submetidos a eutanásia e os encefálos coletados foram marcados por
imunohistoquímica. Foram conduzidos métodos de revisão integrativa sobre os efeitos da
ayahuasca na ativação de estruturas neurais em roedores ou humanos; com aplicação das
ferramentas ARRIVE 2.0 e SYRCLE para análise de qualidade e risco de vieses nos relatos
experimentais, respectivamente. As análises bioquímicas demonstraram formulações de
ayahuasca com concentrações diversas dos alcaloides quantificados. Ambos os cronogramas
de tratamento empírico se mostraram seguros. As análises empíricas de ativação celularapós
exposição aguda à ayahuasca demonstraram aumento de células Fos+ para região shell do
núcleo accumbens (p<0.05) quando comparadas ao grupo placebo. Os métodos revisionais
incluíram a revisão de doze estudos com roedores (n=8) ou humanos (n=4), que apontaram
evidências convergentes e/ou divergentes sobre o padrão de ativação neural após exposição a
ayahuasca em ambos modelos, com destaque para investigações dos efeitos da ayahuasca no
sistema de recompensa (roedores) e sobre componentes de redes neurais transmodais
(humanos). Em conclusão, observamos que as amostras de ayahuasca avaliadas se mostraram
bastante diversas quanto ao conteúdo dos principais alcalóides psicoativos. Todos os
tratamentos empíricos in vivo foram bem tolerados pelos animais, provocando mudanças
significativas na ativação neural no núcleo accumbens shell após exposição aguda à
ayahuasca. Os estudos revisados com modelos murinos apresentaram extensas fragilidades na
qualidade dos relatos e também na avaliação de riscos de vieses. Discutimos sobre as
limitações de inferências translacionais acerca dos efeitos da ayahuasca entre humanos e
roedores.