O CLIMA E SUAS RELAÇÕES COM A INCIDÊNCIA DE DENGUE NO MUNICÍPIO DE RIO GRANDE DA SERRA, ABC PAULISTA – SP
Em tempos de emergência climática, a dengue tem se expandido globalmente e se intensificado no Brasil. Com surtos cada vez mais frequentes e intensos, tornam-se fundamentais estudos interdisciplinares para compreender como o clima influencia o ciclo do vetor e a dinâmica da doença em diferentes municípios, ainda mais aqueles em desenvolvimento. Portanto, este trabalho teve por objetivo investigar o comportamento das variáveis climáticas e suas possíveis relações na incidência de dengue no município de Rio Grande da Serra (RGS) – SP. Para a construção da climatologia (1961–2023), utilizaram-se dados de precipitação, temperatura (máxima e mínima), evapotranspiração e umidade relativa do ar provenientes do Brazilian Daily Weather Gridded Data (BR-DWGD). Foram analisados o padrão mensal, a variabilidade interanual, os extremos (percentis 90 e 10) e as tendências estatísticas via testes de Mann-Kendall e Sen. Os dados de casos suspeitos de dengue (2014 a 2025) foram extraídos do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) e convertidos em taxas de incidência. A análise das relações incluiu a correlação de Spearman, o Índice Kaiser-Meyer-Olkin (KMO), o Teste de Bartlett e a Análise de Componentes Principais (ACP), considerando diferentes matrizes, defasagens e escalas temporais. Os resultados indicaram uma sazonalidade marcada por verões quentes e chuvosos e invernos menos pluviosos. Janeiro concentrou a maior precipitação acumulada (309,8 mm) e as maiores taxas de evapotranspiração (118,9 mm). As temperaturas médias mensais variaram entre 11,4 °C (mínimas) e 27,6 °C (máximas), com umidade relativa do ar elevada ao longo de todo ano. Identificaram-se tendências de redução na chuva e na umidade, associadas ao aumento significativo das temperaturas e da evapotranspiração, o que caracteriza um quadro clássico de aquecimento local. Quanto à dengue, o ano de 2024 registrou o maior surto da série histórica do município, cujo padrão de aumento das notificações concentrou-se, geralmente, nas semanas epidemiológicas correspondentes ao outono. As correlações de Spearman evidenciaram associações predominantemente muito fracas entre a doença e as variáveis climáticas. No entanto, os testes de KMO e Bartlett confirmaram a adequação das matrizes analisadas para a ACP, evidenciando correlação suficiente entre as variáveis selecionadas para a redução da dimensionalidade. A ACP revelou que a dengue, precipitação e temperatura compartilham um gradiente climático comum, com a primeira componente principal explicando cerca de 50% da variância total na maioria das matrizes testadas. Concluiu-se que o clima influencia a dinâmica temporal da dengue no município, embora não atue como seu único fator determinante.