O lugar da União dos Movimentos de Moradia de São Paulo na consolidação da autogestão na produção social da moradia: os limites de participação e a (im) possibilidade de emancipação.
Esse trabalho busca contribuir para a reflexão acerca das condições de produção e apropriação do espaço na cidade de São Paulo, através da atuação dos movimentos de moradia. Para desen- volver essa discussão, primeiro construímos uma abordagem histórica do conceito de autoges- tão e como o movimento de moradia se apropria desse termo. Partimos do pressuposto de que o desenho das políticas públicas, particularmente a habitacional, é resultado da disputa de inte- resses e da interação entre Estado, mercado e sociedade civil. E que a partir dessa interação o movimento de moradia se formou, amadureceu e passou a interferir na formulação das políticas habitacionais. A autogestão na produção habitacional, na perspectiva da dimensão coletiva e da produção não mercantil da moradia, norteará a discussão deste trabalho. Discorrer sobre o tema também ajudará a compreender os processos, sentidos e estratégias de enfrentamento político, numa busca por categorias identitárias de luta, em contraponto à cultura estruturada e estrutu- rante da propriedade privada e da tendência neoliberal de individualização, que esvaziam a organização e, em consequência, seu alcance político e social. E que a partir dessa interação o movimento de moradia se formou, amadureceu e passou a interferir na formulação das políticas habitacionais. A relação das entidades que construíram os mutirões autogeridos filiados à época à UMM-SP, os impactos na vida coletiva das famílias por meio dessa vivência no canteiro de obras e a vida após a ocupação das unidades, é a nova investigação que me move. Não para apenas quantificar o número de mutirões com que a UMM-SP colaborou na consolidação desses projetos e ou para apontar as relações políticas atuais dessas entidades. O direcionamento maior é demonstrar o que une alguns grupos a permanecer na luta, a organização social desses espaços e a transformação desses territórios de utopia, iniciados no canteiro de obras do mutirão, per- passando a vida comunitária no período de ocupação das unidades e a luta coletiva permanente das entidades e ou lideranças formadas nesse processo. Essa temática da “pós-ocupação” é muito cara para o movimento de moradia, afinal manter acesa a chama da organização coletiva e dos anseios comuns após a entrega das chaves, da assinatura do contrato e da inserção no território, os conflitos, dilemas das relações humanas pautados pela sociedade desigual ensejam um afastamento das famílias às lideranças que coordenaram o processo do mutirão, devido a vários fatores de ausência de compreensão da condição anterior, distanciamento da luta cotidi- ana para “cuidar da vida individual”. De outro lado, é perceptível que a presença contínua das lideranças originárias na articulação do território, por meio da luta pelo acesso à moradia digna na construção de novos projetos habitacionais, promove uma reaproximação de algumas pes- soas na indicação do movimento a algum membro da família que necessita de moradia.