Cultiva uma horta e vive junto: territorialidades do cuidado na HOrta Comunitária Gera Juncal (São Paulo)
Esta tese investiga como cuidado e comuns urbanos contribuem para pensar o planejamento territorial a partir de perspectivas situadas e emancipatórias. O estudo parte da compreensão dos comuns não apenas como recursos compartilhados, mas como processos relacionais e políticos de construção coletiva, atravessados por disputas materiais, simbólicas e epistemológicas. Nos territórios urbanos, comuns se manifestam em práticas cotidianas que combinam provisão material, solidariedade e imaginação política, em meio a conflitos por propriedade, desigualdade socioespacial e crises ambientais. O caso empírico analisado é a Horta Comunitária Gera Juncal (HCGJ), localizada na zona leste de São Paulo, criada em 2021 a partir da articulação de movimentos populares de moradia e organizações comunitárias. A horta constitui um espaço de produção agroecológica e de organização política que conjuga estratégias de soberania alimentar e permanência no território em um contexto de insegurança habitacional e precariedade urbana. Como prática coletiva, a HCGJ evidencia o papel das hortas comunitárias não apenas como iniciativas ambientais ou alimentares, mas como arenas de negociação política, construção de solidariedades e experimentação de alternativas de vida urbana. A pesquisa se fundamenta em referenciais das ecologias políticas, dos estudos urbanos críticos e das perspectivas feministas e decoloniais sobre cuidado e comuns. Esses referenciais permitem destacar tanto os aspectos materiais da sustentação da vida quanto os entrelaçamentos emocionais, corporais e relacionais que estruturam as territorialidades. O conceito de territorialidades de cuidado, elaborado nesta tese, busca nomear processos em que autonomia e interdependência se articulam para garantir condições de sobrevivência, resistência e imaginação coletiva em territórios populares. Metodologicamente, trata-se de um estudo qualitativo e indutivo, de estudo de caso, com trabalho de campo baseado em observação participante, entrevistas semiestruturadas, análise documental e produção de notas de campo. Essa abordagem possibilita compreender a complexidade das práticas da horta comunitária em suas dimensões cotidianas, políticas e simbólicas, reconhecendo a comunidade como produtora de conhecimento e como agente de transformação territorial. Os resultados destacam três eixos principais. Primeiro, a trajetória de formação da HCGJ evidencia como movimentos populares articulam luta por moradia, soberania alimentar e direito ao território em práticas concretas de organização comunitária. Segundo, o cotidiano da horta mostra como vínculos, ritmos e práticas coletivas produzem territorialidades baseadas no cuidado, em meio a contradições, conflitos e negociações com atores diversos. Terceiro, as redes construídas pela horta, entrelaçando movimentos sociais, políticas públicas e atores acadêmicos, revelam a potência e os limites de processos de fazer-comum em contextos de vulnerabilidade urbana. A tese contribui, assim, para o debate sobre comuns urbanos ao evidenciar seu caráter relacional e processual, ligado à sustentação da vida e à produção de comunidades políticas. Ao mesmo tempo, propõe uma ampliação do campo do planejamento territorial, incorporando o cuidado como horizonte ético e prático capaz de reconhecer experiências comunitárias como formas legítimas de planejamento. Em última instância, a pesquisa sugere que um planejamento territorial informado pelo cuidado pode favorecer sociedades mais justas e conviviais, capazes de responder às urgências sociais e ambientais contemporâneas.