Diversidade de algas pardas (Phaeophyceae) no litoral Nordeste do Brasil
As algas marinhas exercem papéis ecológicos essenciais, contribuindo para a produção primária, formação de habitats e ciclagem de nutrientes, além de apresentarem relevância econômica na produção de alimentos, cosméticos, fármacos, têxteis e biocombustíveis. Entre elas, as algas pardas (classe Phaeophyceae) são exclusivamente multicelulares e apresentam espécies com ampla distribuição geográfica, e outras que formam ecossistemas importantes para muitos organismos marinhos, como o Mar de Sargaço e as florestas de kelps.. A identificação específica tradicional, baseada em caracteres morfológicos, é dificultada pela plasticidade fenotípica e sobreposição de caracteres entre espécies. A técnica do DNA barcoding, utilizando marcadores como o mitocondrial cox3, oferece uma abordagem objetiva para delimitação de espécies e identificação de espécies crípticas, possibilitando revisões taxonômicas mais precisas. Assim, este estudo objetivou analisar a diversidade das algas pardas no Nordeste do Brasil por meio da integração de dados morfológicos e moleculares, avaliando caracteres diagnósticos e utilizando o marcador mitocondrial cox3 para delimitação de espécies. As coletas foram realizadas em oito dos nove estados do litoral nordestino, desde o supralitoral até o mesolitoral inferior, durante marés baixas de sizígia. Os espécimes foram coletados manualmente, catalogados e acondicionados em sílica gel para análises moleculares e herborizados para depósito no Herbário Sinningia (HUFABC). As análises morfológicas incluíram cortes transversais e longitudinais dos talos, quando aplicáveis, fotografias com microscopia óptica e estereomicroscópio e descrições, revisando as originais e outras mais atuais, quando presentes. O DNA foi extraído pelo protocolo CTAB, e o marcador cox3 foi amplificado por PCR e sequenciado. As sequências foram inspecionadas e alinhadas no Geneious Prime, divergências genéticas foram avaliadas no MEGA12 e árvores foram construídas por Neighbor-Joining com bootstrap de 2.000 réplicas. Três métodos de delimitação de espécies foram aplicados (ASAP, PTP e SPN) para auxiliar na formulação de hipóteses taxonômicas robustas. O gênero Sargassum não foi incluído nas análises devido à baixa resolução dos marcadores moleculares testados até o momento, além de grande plasticidade fenotípica. Foram coletados 1.576 espécimes, dos quais 400 foram selecionados para análise morfológica e molecular, sendo geradas 294 sequências de cox3. Dez gêneros de Phaeophyceae foram identificados: Canistrocarpus, Chnoospora, Colpomenia, Dictyota, Dictyopteris, Hydroclathrus, Lobophora, Padina, Stypopodium e Spatoglossum. Não foram encontrados espécimes de Phaeophyceae no Maranhão, enquanto outros estados apresentaram diferentes combinações de gêneros, incluindo ocorrências inéditas para algumas espécies, indicando lacunas nos registros existentes. Foi registrada a nova ocorrência de Hydroclathrus tenuis para o Brasil. O estudo evidenciou a importância da taxonomia integrativa na identificação das algas pardas do litoral nordeste brasileiro, demonstrando que o uso de diferentes fontes de evidências é útil para detectar diversidade de espécies previamente não registrada. Os resultados contribuem com o conhecimento da diversidade, taxonomia e biogeografia, com relevância para o estabelecimento de estratégias de conservação de Phaeophyceae no Brasil.