Variação da forma do crânio de anuros da família Ceratophryidae Tschudi, 1838
A família Ceratophryidae (Tschudi, 1838) consiste em anuros sul-americanos robustos, caracterizados por grandes mandíbulas e exostoses cranianas, agrupando três gêneros: Ceratophrys (oito espécies), Lepidobatrachus (três espécies) e o monotípico Chacophrys. Sua distribuição abrange biomas áridos e úmidos da América do Sul, incluindo Caatinga, Cerrado, Pampas, Amazônia e Mata Atlântica. Embora seja consenso que o clado é monofilético, as relações de parentesco internas e externas da família permanecem instáveis, com investigações morfológicas sugerindo afinidade maior entre Ceratophrys e Lepidobatrachus, enquanto estudos moleculares recentes propõem que Lepidobatrachus e Chacophrys formem um clado irmão. Neste trabalho, iInvestigou-se a variação da forma craniana em 10 das 12 espécies descritas viventes de Ceratophryidae por meio de morfometria geométrica 3D. As tomografias computadorizadas dos crânios foram processadas com o InVesalius e, quando necessário, usou-se o Avizo, para segmentação volumétrica. Os modelos resultantes foram refinados no MeshLab e marcados com landmarks no MorphoDig. As análises estatísticas foram realizadas em RStudio, empregando os pacotes geomorph (GPA, cálculo de formas médias, PCA e visualização de deformações), readxl e tidyverse (manipulação e plotagem de dados), e phytools e phylocurve (reconstrução de filomorfoespaços e teste de sinal filogenético via K.mult). Os resultados da PCA demonstraram que o primeiro componente (PC1) discrimina nitidamente Lepidobatrachus (crânios mais largos) de Ceratophrys (crânios estreitos), enquanto o segundo componente (PC2) reflete variações no achatamento dorsoventral e curvatura do teto craniano, particularmente dentro de Ceratophrys. O exemplar de Chacophrys posicionou-se como outlier em ambos os eixos, sugerindo morfologia distinta e potencial clado separado. A integração do espaço morfológico com a filogenia confirmou padrões consistentes de divergência adaptativa associados a estratégias de predação e a diferentes micro-habitats. Conclui-se que a forma craniana em Ceratophryidae está organizada principalmente ao longo de eixos funcionais que se relacionam a modos de alimentação — emboscada terrestre versus sucção aquática — e à história evolutiva dos gêneros. A abordagem 3D e filogenética proporcionou uma visão integrativa das forças seletivas e da herança filogenética na diversificação craniana. Recomenda-se a inclusão de semilandmarks em regiões curvadas para aumentar a resolução dos padrões de forma, além de associar esses dados a variáveis ecológicas e de comportamento alimentar para elucidar ainda mais os mecanismos que moldaram a diversidade morfológica em Ceratophryidae.