Da práxis docente à inclusão social na EJA: caminhos de transformação por meio de uma pesquisa participante.
A Educação de Jovens e Adultos (EJA), reconhecida pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB nº 9.394/1996, permanece historicamente marcada por fragilidade institucional, descontinuidade política e uma visão compensatória que reduz sua potência como política pública de inclusão. No Brasil, mais de 80 milhões de pessoas não concluíram a educação básica e cerca de 1,5 milhão de adolescentes entre 14 e 17 anos estavam fora da escola em 2020 (INEP, 2020), dados que evidenciam a profundidade das desigualdades educacionais e a centralidade da EJA como política de reparação histórica, social e cognitiva. Nesse cenário, políticas curriculares nacionais como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), mesmo após sua atualização em 2024, pouco dialogam com as especificidades da modalidade, revelando a distância entre o discurso de inclusão e práticas que, na realidade, mantêm a EJA em posição subalterna e marginalizada no sistema educacional brasileiro. Diante desse cenário, esta tese busca responder à seguinte questão: Quais sentidos e possibilidades emergem da transformação da práxis docente, mediada por processos formativos em educação não formal e alfabetização científica, para a promoção da inclusão social de estudantes da EJA? A pesquisa tem como objeto o projeto de extensão S(EJA) Cons(Ciência), desenvolvido pela Universidade Federal do ABC (UFABC) em parceria com a rede municipal de Santo André (2022–2024). Foi estruturada a partir da oferta de um curso de extensão voltado à formação docente, concebido como espaço formativo e investigativo no âmbito da Pesquisa Participante (PP). A educação não formal foi adotada como eixo estruturante dessa formação, articulada à alfabetização científica crítica e à interdisciplinaridade, com a finalidade de potencializar a transformação da práxis docente e, a partir dela, promover caminhos concretos para a inclusão social dos estudantes da EJA. A abordagem qualitativa da pesquisa envolveu entrevistas semiestruturadas, observação participante, registros reflexivos e análise de materiais produzidos, com base na Análise de Conteúdo de Bardin. Os resultados, organizados em seis categorias analíticas, revelam transformações significativas na práxis docente: fortalecimento da autonomia dos educadores, integração entre saberes populares e conhecimentos científicos, ampliação de repertórios culturais e cognitivos e fortalecimento do sentimento de pertencimento dos estudantes. As instituições não formais de educação, Sabina – Parque Escola de Conhecimento (Santo André), Escola Municipal de Educação Ambiental Parque Tangará (Santo André) e Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo, Ipiranga (São Paulo), mostraram-se importantes espaços educativos, capazes de ampliar horizontes, favorecer a formação crítica e promover justiça cognitiva. Conclui-se que a força desta pesquisa reside na articulação entre pesquisa participante, educação não formal e alfabetização científica crítica, possibilitando superar a lógica compensatória e ressignificar a EJA como política pública de inclusão social, cultural e científica. A tese contribui, assim, para consolidar a modalidade como campo de resistência, emancipação e produção coletiva de saberes.