Modulação do estresse oxidativo pelas frações peptídicas da peçonha das serpentes B. jararaca e D. siamensis em modelos de neurodegeneração
As doenças neurodegenerativas representam um desafio global crescente, impulsionando a busca por novas moléculas terapêuticas capazes de mitigar o estresse oxidativo e a morte neuronal. A peçonha de serpentes, bibliotecas evolutivas de compostos bioativos, oferecem um vasto potencial biotecnológico ainda pouco explorado, especialmente em frações de baixa massa molecular. Este estudo teve como objetivo avaliar e comparar o potencial neuroprotetor e terapêutico das frações peptídicas (<10 kDa) da peçonha de Bothrops jararaca (pf-Bj) e Daboia siamensis (pf-Ds) frente à toxicidade induzida por peróxido de hidrogênio (H2O2). A metodologia adotou uma abordagem translacional, integrando ensaios in vitro com células PC12 (indiferenciadas) e mHippoE-18 (neurônios hipocampais diferenciados) e in vivo utilizando o modelo zebrafish (Danio rerio). Os resultados revelaram diferenças funcionais significativas entre as espécies e os modelos testados. In vitro, a pf-Ds apresentou citotoxicidade metabólica seletiva em PC12, enquanto a pf-Bj, em protocolo terapêutico de longa exposição, promoveu recuperação da integridade celular e estímulo bioenergético robusto na linhagem mHippoE-18, superando as limitações metabólicas observadas nas células PC12. In vivo, ambas as frações mostraram-se seguras quanto à teratogenicidade e letalidade. Contudo, análises bioquímicas revelaram que a pf-Ds induziu um aumento deletério na atividade da acetilcolinesterase (AChE), correlacionado a alterações motoras oscilatórias. Em contraste, a pf-Bj manteve a homeostase colinérgica e, no modelo de exposição prolongada à fração (96-120 hpf), foi capaz de reverter significativamente a letargia locomotora induzida pelo estresse oxidativo. Aprofundando a investigação mecanística do protocolo terapêutico in vitro, o pós-tratamento com pf-Bj em neurônios mHippoE-18 atenuou de forma dependente do tempo o acúmulo de espécies reativas de oxigênio (ROS) intra e extracelulares e reverteu a hiperpolarização mitocondrial (Δψm) induzida pelo estresse. Além disso, análises de redes (networks) revelaram que a ação terapêutica da pf-Bj atua fragmentando a conectividade patológica centralizada no eROS, transferindo o controle da rede celular para uma regulação adaptativa modulada pela superóxido dismutase (SOD). Em síntese, o estudo sugere que a divergência evolutiva entre as serpentes reflete-se em seus perfis farmacológicos: enquanto a pf-Ds apresenta riscos de desregulação neurotransmissora, a pf-Bj exibe um perfil neuroprotetor e terapêutico promissor, eficaz na preservação da funcionalidade neural, controle redox e manutenção da integridade celular frente ao dano oxidativo.