A CHINA NA PANDEMIA DA COVID-19:
A guerra de narrativas como disputa na Economia Política Mundial
Resumo: Esta tese investiga o papel do discurso jornalístico na construção de sentido sobre a
China durante a pandemia da covid-19, compreendendo-o como prática material de regulação
simbólica da ordem internacional. O ponto de partida é a cobertura noticiosa da imprensa
brasileira - especialmente do Grupo Globo - entre 2020 e 2023, confrontada com documentos
oficiais chineses e da Organização Mundial da Saúde (OMS). O objetivo é compreender em
que medida essas narrativas refletem, reproduzem ou tensionam as hierarquias de poder que
estruturam a economia política mundial contemporânea. Metodologicamente, o estudo
articula a análise de discurso de Michel Pêcheux e a noção de hegemonia em Antonio
Gramsci, sob uma perspectiva ontológica marxista. A partir de um corpus de reportagens
selecionadas, identificam-se quatro núcleos temáticos de sentido, que evidenciam o modo
como o discurso jornalístico reforça a centralidade do Ocidente como sujeito legítimo da
enunciação e do saber. Os resultados indicam que não se trata de uma “guerra de narrativas”,
mas de uma disputa pela manutenção da hegemonia informacional, na qual o jornalismo atua
como dispositivo de estabilização simbólica da ordem mundial. Ao mesmo tempo,
demonstra-se que a resposta chinesa à pandemia expressa a continuidade histórica do
socialismo com características chinesas, articulando capacidade estatal, eficiência do
mercado, ciência e planejamento de longo prazo. Assim, a pesquisa contribui para deslocar o
debate da representação da China para a crítica das hierarquias epistêmicas da Economia
Política Mundial, revelando dilemas reais que emergem da crise da globalização liberal.