Suporte ou suportar: Do apoio ao regime da automobilidade à resignação profissional e política.
A mobilidade possui especificidades quando o recorte é urbano. A “transição sociotécnica” no setor de transportes ocorreu diversas vezes ao longo do tempo, destacando-se mais recentemente o papel do automóvel na reconfiguração das cidades. Ou melhor, o automóvel foi estabelecido como o artefato principal do regime da automobilidade, em torno do qual se organizaram as sociedades contemporâneas. A motorização em massa, então, trouxe externalidades negativas, tensionando a insuficiência e uma revisão dos paradigmas tradicionais de transporte orientada à conceitos de mobilidade tida como sustentável. O recente fortalecimento de perspectivas sociológicas evidenciou as desigualdades nas mobilidades, enquanto medidas recentes, mais orientadas por preceitos de uma mobilidade justa, buscaram, e ainda pretendem, reduzir a dependência do carro com a intenção de promover, além de mobilidades sustentáveis e justas, a melhoria da qualidade de vida urbana. O "novo paradigma das mobilidades" enfatiza os aspectos sociológicos e a compreensão dos comportamentos humanos que são relacionados à mobilidade urbana. O objeto de estudo da pesquisa concentra-se no “regime da automobilidade” e o seu suporte. O caso de estudo observa as práticas dos profissionais e agentes que exercem ou exerceram atividades na área de ações públicas em transportes e mobilidade urbana, inseridas no contexto brasileiro. O problema central da pesquisa é compreender por que a prática dos profissionais e agentes das ações públicas em transportes e mobilidade urbana ainda mantém um suporte robusto ao regime da automobilidade. A hipótese a ser verificada é que a transição do paradigma técnico-científico tradicional dos transportes para o paradigma das mobilidades (no caso as urbanas) não é homogênea, nem entre os agentes e nem nos variados campos de atuação, considerando-se os conhecimentos, crenças, compromissos e nível de discricionariedade. Para isso, pretende-se sistematizar as teorias fundamentais e investigar a percepção dos profissionais e agentes na área de ação pública (funcionários públicos, especialistas, acadêmicos, consultores e ativistas) em relação às suas atividades e produtos, aos conhecimentos e ideais próprios e à situação da mobilidade urbana na realidade brasileira em que atuam.