TRABALHO, CAPITAL E NEOLIBERALISMO: TRAJETÓRIAS SINDICAIS COMPARADAS NO BRASIL E NA ARGENTINA (1990 - 2022)
Esta tese investiga as estratégias de resistência e adaptação desenvolvidas pelos movimentos
sindicais do Brasil e da Argentina em face das políticas neoliberais implementadas desde as
décadas de 1980 e 1990, com ênfase no período de radicalização neoliberal compreendido entre
2015 e 2022. A questão central que orienta a pesquisa é a seguinte: o movimento sindical ainda
constitui, nos dois países, um ator político relevante e eficaz na defesa dos direitos e interesses da
classe trabalhadora? A investigação adota uma metodologia comparativa articulada a três pilares:
análise histórica de longa duração, revisão bibliográfica ancorada na tradição marxista — com
ênfase nos referenciais de Nicos Poulantzas e no conceito de neodesenvolvimentismo de Boito
Jr. e Berringer — e sete entrevistas semiestruturadas com dirigentes das principais centrais
sindicais dos dois países. No caso brasileiro, foram analisadas a Central Única dos Trabalhadores
(CUT), a Força Sindical (FS) e a União Geral dos Trabalhadores (UGT), cujas respostas aos
governos Temer e Bolsonaro revelam um padrão de tripla insuficiência estratégica: acomodação
institucional, pragmatismo despolitizado e paralisia por fragmentação interna. No caso argentino,
examinam-se a Confederação Geral do Trabalho (CGT), a Central de Trabalhadores da Argentina
dos Trabalhadores (CTA-T) e a Central de Trabalhadores da Argentina Autônoma (CTA-A),
cujas trajetórias diante do governo Macri evidenciam tanto a preservação de uma reserva
estratégica de confronto quanto os limites da orientação sociopolítica quando desacompanhada
de capacidade de mobilização de massas. A tese demonstra que os ciclos progressistas (petismo e
kirchnerismo) produziram uma armadilha estrutural: as conquistas obtidas por via institucional
geraram dependência que inibiu a autonomia sindical e esvaziou a formação política das bases,
agravando a vulnerabilidade do movimento quando do retorno de governos radicalmente
neoliberais. Em resposta a esse quadro, a investigação propõe o sindicalismo sociopolítico —
conceito sistematizado pela Confederação Sindical das Américas (CSA) a partir de Medeiros
(2015) — como horizonte estratégico necessário: uma orientação que recusa simultaneamente o
economicismo negocial e o politicismo que dissolve a especificidade sindical, e que propõe a
ampliação da representação para incluir trabalhadores informais, precários e uberizados. A tese
examina ainda a internacionalização sindical como resposta estrutural à globalização do capital,
distinguindo entre internacionalização de cúpula e internacionalização orgânica, e avaliando o
papel da CSA como plataforma continental de resistência. A conclusão é ao mesmo tempo sóbria
e não derrotista: o sindicalismo permanece ator relevante, mas sua relevância é decrescente e
condicionada pela capacidade de realizar uma autorreforma política profunda — da
representação, da democracia interna e das formas de mobilização — adequada ao mundo do
trabalho fragmentado, uberizado e desterritorializado do século XXI.