ENTRE VALORES: IDENTIDADE NACIONAL, ALIMENTAÇÃO E ECONOMIA POLÍTICA NA MODERNIDADE BRASILEIRA
Esta pesquisa propõe uma análise multidisciplinar da fome e da alimentação no Brasil, investigando-as como fenômenos resultantes do processo de reificação e das transformações nos modos de produção e reprodução social durante a transição para a modernidade capitalista. O estudo busca compreender a fome para além da perspectiva biomédica ou da econômica tradicional, tratando dos temas como fenômenos complexos que articulam dimensões biológicas, culturais e mercantis. Fundamentada na crítica à economia política, a investigação utiliza como aporte teórico central as categorias de reificação e a contradição entre valor de uso e valor de Karl Marx, György Lukács e Bolívar Echeverría. Metodologicamente, a pesquisa adota a epistemologia da complexidade de Edgar Morin e a análise dialógica de Mikhail Bakhtin, utilizando a literatura como material histórico e espaço de disputa discursiva capaz de representar a concretude do cotidiano brasileiro. O corpus literário é composto pelas obras O Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto; Dona Flor e Seus Dois Maridos e Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado; e Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus. A análise dessas obras permite traçar um arco histórico que vai do fracasso do nacionalismo agrário e a idealização do alimento como identidade, passa pela culinária como espaço de sociabilidade e resistência, e culmina na fome como destino da reificação e da urbanização periférica. Conclui-se que a fome no Brasil não é um fenômeno acidental, mas uma realidade estrutural e política, intrinsecamente ligada à formação desigual do Estado nacional e à transformação do alimento em mercadoria.