PROGRAMAS DE FORMAÇÃO DE LIDERANÇA PÚBLICA À BRASILEIRA: Entre a colonização e a territorialização do conhecimento
Esta tese investiga de que modo os programas de formação de lideranças públicas voltados a pessoas diversas, ofertados por escolas de governo brasileiras, contribuem para a reconfiguração dos espaços de poder do Estado. O objetivo central é compreender como essas formações expressam e potencializam as transformações recentes nas dinâmicas de inclusão e diversidade dentro da burocracia pública. De caráter qualitativo e exploratório, a pesquisa baseia-se em análise bibliográfica e documental sobre a constituição do campo de públicas e as políticas de democratização e inclusão das universidades e do serviço público, enfatizando as disputas epistemológicas entre modelos euro-estadunidenses e saberes territorializados. O estudo de caso contempla três escolas de governo, Fundação João Goulart (FJG), Fundação João Pinheiro (FJP) e Escola Nacional de Administração Pública (ENAP), e seus respectivos programas de formação: Programa Rio Liderança Feminina, Programa de Lideranças Negras e LideraGOV. Foram examinados documentos institucionais e materiais pedagógicos, permitindo identificar convergências e especificidades entre as iniciativas. Os resultados indicam que as escolas de governo têm se consolidado como espaços estratégicos para a formação de lideranças mais plurais, operando simultaneamente nos planos simbólico e material. No plano simbólico, essas formações legitimam novas trajetórias e repertórios de liderança, incorporando epistemologias e práticas de gestão pública conectadas às realidades brasileiras. No plano material, fortalecem redes de cooperação entre servidores públicos diversos, ampliando o capital social e político de grupos historicamente sub-representados. Conclui-se que os programas analisados refletem e impulsionam transformações no espaço de poder estatal ao reconhecerem a diversidade, ainda que mantenham elementos gerencialistas em seus conteúdos. Verificou-se, ademais, que a presença de públicos diversos desafia as bases teóricas tradicionais e estimula adaptações curriculares e metodológicas, contribuindo para a produção de novos conhecimentos no campo da liderança pública. Assim, os programas de formação analisados configuram-se como arenas de disputa e inovação, nas quais o Estado brasileiro começa a redefinir, de forma gradual, quem lidera, quem produz conhecimento e quem tem legitimidade para questionar as teorias dominantes sobre liderança pública.