A integração sociocultural e territorial de imigrantes haitianos no Brasil. Estudo comparativo de três comunidades haitianas nas cidades de Braço do Norte (SC), São Paulo (SP) e Rio de Janeiro (RJ)
A partir de 2010, uma nova diáspora haitiana passou a se constituir no Brasil, após o terremoto que devastou a capital, Porto Príncipe, e cidades vizinhas, ocasionando perdas humanas e materiais significativas. Com base na distribuição espacial desse fluxo no território brasileiro, buscamos nesta pesquisa realizar uma análise comparativa da integração sociocultural e da territorialidade construída por três comunidades haitianas residentes em Braço do Norte (SC), Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP). Diante desse cenário, procuramos compreender, para além do terremoto de 2010, quais outros fatores motivaram a migração para o Brasil; como os migrantes escolheram as cidades onde vivem; e o que diferencia a territorialidade dessas comunidades uma da outra em função de suas localizações geográficas, bem como os desafios enfrentados na construção de seus territórios de vida. Participaram do estudo migrantes haitianos(as) residentes nas três cidades e também brasileiros(as) e representantes de instituições públicas e privadas que mantêm algum tipo de relação com essa população. No total, foram envolvidas 40 pessoas, entre haitianos e brasileiros. Os resultados mostram que os migrantes vieram ao Brasil por motivos diversos, que incluem a busca por melhores oportunidades de trabalho, a insegurança nas maiores cidades no Haiti e a expectativa de acesso à educação. A escolha das cidades esteve fortemente associada às redes sociais de migração e oportunidades de emprego. A pesquisa evidencia que a territorialidade haitiana no Brasil não é homogênea; ela é moldada pelas condições socioeconômicas locais, pelas dinâmicas urbanas e pela localização geográfica de cada cidade. Comparativamente, o Braço do Norte apresenta a territorialidade mais coesa, embora mais limitada; o Rio de Janeiro revela uma territorialidade mais vulnerável e fragmentada; e São Paulo demonstra uma territorialidade estruturada, com uma maior identidade cultural, apoiada em serviços, organizações e redes de apoio. Apesar dessas diferenças, as três cidades compartilham desafios comuns que afetam diretamente o processo de integração: racismo estrutural, precariedade habitacional, barreiras linguísticas, ausência de políticas públicas de acolhimento e segregação socioespacial.