Da abjeção à interdependência: corpo, linguagem e violência na filosofia de Judith Butler
Esta tese investiga o problema da violência na filosofia de Judith Butler a partir da hipótese de que há, em sua obra, uma articulação constitutiva entre corpo, linguagem e violência. O argumento desenvolve-se em três movimentos, sustentados por uma leitura transversal que permite conectar os textos dos anos 1990 aos mais recentes. No primeiro movimento, analisa-se a produção da abjeção, evidenciando como normas de gênero e práticas discursivas operam como formas de violência na constituição diferencial dos sujeitos. No segundo movimento, examinam-se as condições políticas dessa produção por meio da noção de precariedade, demonstrando como enquadramentos biopolíticos regulam o reconhecimento público das vidas, definindo quais são consideradas enlutáveis e quais permanecem expostas ao abandono e à desproteção. No terceiro movimento, sustenta-se que a formulação butleriana da não violência, nos textos mais recentes, emerge como resposta teórica e política ao diagnóstico anterior, no qual as justificativas da violência se apoiam na figura de um agente soberano que, em nome da autopreservação, reivindica o direito de excluir ou destruir aqueles construídos como ameaça. Tal lógica, fundada na abjeção e na cisão entre “nós” e “eles”, nega a relacionalidade constitutiva da vida social e sustenta a fantasia de uma soberania autossuficiente. Contra essa lógica e a partir de uma ontologia relacional que compreende vulnerabilidade e interdependência como condições estruturais da existência, Butler demonstra que a pretensão de instaurar uma exterioridade absoluta, mediante a eliminação do outro, fracassa ao corroer as próprias condições que sustentam a vida comum. Butler propõe, como alternativa, uma ética da não violência fundada na interdependência e na igualdade radical das vidas, que recusa a lógica da abjeção e afirma formas de coabitação. Com base nesses três movimentos, evidencia-se na obra de Butler uma compreensão da violência como fenômeno simultaneamente corpóreo, linguístico e político, cuja articulação expõe tanto suas condições de produção e reprodução quanto as possibilidades de sua crítica e superação.