A vanguarda nos tempos do trauma: Estudos sobre a presença da teoria psicanalítica na crítica e na história da arte contemporânea
Em diversos textos publicados ao longo dos anos 1980 e 1990, Benjamin Buchloh, crítico e historiador de arte alemão, e Hal Foster, crítico e historiador de arte estadunidense, abordam as relações entre as vanguardas artísticas europeias dos anos 1910 e 1920 – como o dadaísmo, o construtivismo russo e o surrealismo – e aqueles movimentos artísticos dos anos 1950 e 1960 que ficaram conhecidos como “neovanguardas” – tais como a arte pop, o minimalismo, a arte hiperrealista e a arte conceitual. Tais movimentos posteriores são rechaçados por autores como Peter Bürger, que em sua Teoria da vanguarda (1974) argumenta que a obra de arte vanguardista era produzida tendo o efeito do choque como o mais elevado princípio artístico, porém a eficácia politicamente incerta e psicologicamente única do choque o levou ao seu desgaste, constituindo fator influente no fracasso do projeto vanguardista de recondução da arte à práxis vital. Para Bürger, a consequência histórica de tal fracasso é que a trágica experiência vanguardista não poderia ser repetida no campo da produção artística, de modo que qualquer pretensa neovanguarda seria uma farsa. Tanto Buchloh quanto Foster argumentam que o modelo historiográfico que embasa tal leitura de Bürger é problematicamente linear e propõem, cada um, uma alternativa diferente, mas relacionadas entre si, para se pensar as especificidades desse retorno às vanguardas. Buchloh, se vale da concepção freudiana de repetição fundamentada na negação e na resistência, enquanto Foster se baseia na noção de efeito a posteriori presente no conceito freudiano do trauma em dois tempos e em sua elaboração simbólica. Esta pesquisa analisa o debate entre os três autores dedicando-se especialmente a verificar de que maneira, em suas concepções sobre as relações históricas e estéticas entre as vanguardas e as neovanguardas, não apenas Buchloh e Foster se valem de conceitos oriundos da teoria psicanalítica, mas também como o próprio Bürger, de forma colateral, pode admitir importantes noções dela advindas a partir de um referencial teórico diferente. O propósito aqui é evidenciar as tensões no modo como cada um dos autores situa e interpreta os conceitos psicanalíticos em sua argumentação, extraindo deles diferentes historiografias da passagem da arte moderna para a arte contemporânea e diferentes efetividades políticas relacionadas à produção e à recepção de ambas.