Ontotecnologia: quando a técnica reescreve o ser e o imaginável
O resultadA dissertação examina o conceito de ontotecnologia, definido como a condição em que o ser humano é desconstruído e reformulado como sistema de processamento de informação. Esse pressuposto tem como pilar principal a captura da experiência humana como matéria-prima, em um ciclo que retroage sobre o próprio sujeito e começa a produzi-lo como insumo legítimo de uma lógica que ele mesmo alimenta. A partir da obra de Hermínio Martins, a dissertação mapeia as narrativas civilizacionais prometeica e fáustica que tornaram a tecnociência de mercado possível e desejável, e desenvolve chaves analíticas ontológica, axiológica e epistemológica que permitem identificar os pressupostos filosóficos que os discursos tecnocientíficos mobilizam sem declarar. A epistemologia social de Helen Longino complementa esse instrumental ao demonstrar como valores penetram a prática científica por pressuposições de fundo jamais submetidas ao escrutínio coletivo. Esses pressupostos são então examinados em sua materialização concreta: a partir de Shoshana Zuboff, mostra-se que o capitalismo de vigilância converte a experiência humana em excedente comportamental dentro de uma arquitetura informacional. Nessa arquitetura, o design de plataformas suprime sistematicamente a fricção deliberativa ao operar sobre as vulnerabilidades cognitivas e emocionais do usuário como especificações de engenharia, e os sistemas de inteligência artificial fabricam representações do sujeito a partir de comportamentos que eles mesmos induziram. O resultado é a tecnocratização da imaginação: o horizonte ontotecnológico coloniza não apenas a arquitetura das plataformas, mas a capacidade do sujeito de reconhecer que a representação que o sistema faz dele é uma escolha histórica contestável, e não uma descrição neutra do que ele é. A dissertação examina ainda como esse horizonte se enuncia abertamente nos discursos corporativos e institucionais da tecnociência contemporânea, tornando visível o que nas arquiteturas opera sem ser nomeado, mas intrínseco ao próprio modelo de negócio atual. Frente a esse percurso, o conceito de nontade de Hermínio Martins — a capacidade de recusar o que se tornou tecnicamente possível de ser realizado — é resgatado como condição mínima para que a crítica alcance os pressupostos que produzem os efeitos, e não apenas os efeitos.