Uma leitura de “A Origem da Obra de Arte” de Martin Heidegger à luz de suas interpretações da filosofia de Nietzsche
Esta pesquisa propõe uma interpretação do texto A Origem da Obra de Arte à luz de questões
que surgem nos textos em que Heidegger interpreta a filosofia de Nietzsche, em especial
naqueles que abordam diretamente a relação entre arte e verdade no pensamento
nietzscheano, como A Vontade de Poder como Arte e A Vontade de Poder como
Conhecimento. Essa proposta de interpretação se fundamenta na hipótese de que o horizonte
de sentido das posições de Heidegger em A Origem da Obra de Arte consiste no seu diálogo
intensivo e continuado com a história da filosofia, diálogo que não aparece na superfície do
texto na forma de citações e referências, mas que é pressuposto e mobilizado em cada passo
da exposição. A escolha por reconstruir o múltiplo feixe de relações e tensões que estabelece
particularmente com o pensamento de Nietzsche no tema da arte se baseia na
indissociabilidade, em Nietzsche, da tematização da arte em relação à tematização da
verdade. Essa indissociabilidade ecoa o momento fundante do discurso filosófico, em que
Platão propõe a separação entre conhecimento e arte e a exclusão da arte da esfera da
verdade. Heidegger, partindo do esgotamento do discurso filosófico tradicional, vai se voltar
justamente para essa relação estabelecida por Platão e questionada por Nietzsche, buscando
nela novas possibilidades históricas para ambas a arte e o pensamento. Ao longo da
exposição, procuraremos ressaltar que à luz das interpretações sobre Nietzsche, saltam à vista
dois aspectos do ensaio A Origem da Obra de Arte: o seu confronto com a tradição estética e
a aposta nas potencialidades da arte para configurar as possibilidades da existência humana.
A hipótese dessa dissertação é que esses são, respectivamente, o ponto de maior
distanciamento e de maior aproximação com a filosofia de Nietzsche, e que esse movimento
de distanciamento e aproximação com esse pensamento, bem como com muitos outros, traça
o sentido das posições de Heidegger.