Um campo transcendental sem sujeito: o estatuto da consciência na fenomenologia sartriana.
Esta dissertação investiga o estatuto ontológico da consciência na fenomenologia sartriana a partir de sua ruptura com o idealismo transcendental husserliano, tendo como eixo a relação entre o conceito de intencionalidade e a dissolução do sujeito. O objetivo central consiste em esclarecer como a radicalização da intencionalidade conduz, em Sartre, à formulação de um campo transcendental sem sujeito e à determinação da liberdade como estrutura ontológica da consciência, capaz de assumir, na existência concreta, tanto a forma de projeto existencial quanto de má-fé. O método parte da análise conceitual rigorosa de textos do primeiro período da filosofia de Sartre para remontar seus pressupostos fenomenológicos e consequências ontológicas. No primeiro momento, examina-se a leitura sartriana do conceito de intencionalidade em diálogo crítico com Husserl, evidenciando a concepção da consciência como puro transcender-se e como exterioridade originária ao mundo. Em seguida, reconstrói-se a crítica ao Eu transcendental, em A Transcendência do Ego, mostrando como o ego surge apenas como produto reflexivo e como sua introdução mascara a espontaneidade impessoal da consciência. O terceiro momento investiga, em O Imaginário, como a nadificação do real se revela como gesto inaugural da liberdade, explicitando a imaginação como necessária à qualquer consciência livre. Como resultado, demonstra-se que a liberdade não é uma faculdade e que sua primeira inscrição não está na ética, mas na ontologia. Por fim, a análise da má-fé permite compreender como essa mesma liberdade pode ser vivida como dissimulação e fuga de si, sem jamais deixar de reafirmar sua estrutura ontológica. Conclui-se que a fenomenologia sartriana conduz necessariamente a uma ontologia, que pode indicar a fundamentação de uma ética não normativa, enraizada na estrutura mesma da consciência.