DINÂMICA DE USO DE FRUTOS POR UNGULADOS NATIVOS E PELO JAVALI INVASOR (SUS SCROFA) E SUAS CONSEQUÊNCIAS PARA FRUGÍVOROS NEOTROPICAIS
A partição espacial e temporal de recursos é um dos principais mecanismos que sustentam a coexistência entre espécies competidoras. Quando recursos ocorrem em manchas concentradas, como sítios frutíferos, o uso simultâneo por múltiplos consumidores tende a intensificar a competição, tornando as diferenças no comportamento de forrageamento decisivas para a organização das comunidades frugívoras. Apesar disso, ainda é limitado o entendimento de como a introdução de invasores generalistas, como o javali (Sus scrofa), interfere nesses mecanismos em ecossistemas neotropicais. Nesta tese, avaliei como a pressão do javali se associa a mudanças no uso de frutos por ungulados nativos e a possíveis desdobramentos na organização funcional da comunidade frugívora. Para isso, monitorei sítios de frutificação por armadilhas fotográficas em duas regiões do Mato Grosso do Sul: o Pantanal, onde o javali está estabelecido há mais tempo, e o planalto da Serra da Bodoquena, onde a invasão é mais recente. Os resultados mostraram respostas espécie-específicas e dependentes do contexto regional. Queixadas e javalis exibiram padrões de uso semelhantes, com maior consistência do javali entre regiões (Cap. 1). No Pantanal, o javali apresentou vantagem contexto-dependente, aumentando o uso de sítios experimentais, enquanto o queixada reduziu o uso desses sítios (Cap. 2). Embora os queixadas continuem os principais removedores de frutos, a presença do javali atrasou a chegada dos bandos e alterou a frequência de visitas a recursos (Cap. 3). Evidências iniciais sugerem que essas alterações podem se propagar a outros frugívoros, configurando potenciais cascatas comportamentais na comunidade (Cap. 4). Em conjunto, os resultados apontam para uma reorganização das redes fruto–consumidor, caracterizada por redistribuição de papéis funcionais entre espécies, redução da centralidade relativa do queixada e aumento da generalização das interações, ainda que sem mudanças detectáveis em métricas globais da rede (Cap. 5). Esta tese destaca mecanismos comportamentais ainda pouco explorados no Neotrópico e contribui para a compreensão dos efeitos funcionais de espécies invasoras, oferecendo subsídios para o manejo do javali e a conservação de frugívoros e ecossistemas tropicais.