DA PRÁXIS DOCENTE À PARTICIPAÇÃO SOCIAL NA EJA: CAMINHOS DE RESSIGNIFICAÇÃO ENTRE ESCOLA, UNIVERSIDADE, EDUCAÇÃO NÃO FORMAL E CULTURA CIENTÍFICA
A Educação de Jovens e Adultos (EJA), embora reconhecida como modalidade da Educação Básica pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, permanece historicamente marcada por descontinuidades políticas, fragilidades institucionais, invisibilidade curricular e restrições no acesso de jovens, adultos e idosos trabalhadores aos bens culturais, científicos e educativos. Nesse contexto, esta tese investiga de que modo a articulação entre formação continuada docente, Alfabetização Científica (AC), Pesquisa Participante (PP) e experiências de educação não formal (ENF) em espaços educativos não escolares relacionou-se, no contexto do projeto S(EJA) Cons(Ciência), à ressignificação da práxis docente e à ampliação dos repertórios culturais e científicos, do pertencimento e da participação social de estudantes da EJA. Tais dimensões foram tomadas como eixos analíticos da investigação. O objetivo geral consiste em analisar essa articulação a partir do projeto de extensão universitária S(EJA) Cons(Ciência), desenvolvido entre 2022 e 2024, em parceria entre a Universidade Federal do ABC (UFABC) e a Rede Municipal de Ensino de Santo André. A UFABC é compreendida como instituição pública formal de ensino, pesquisa e extensão universitária, e não como espaço de educação não formal. A pesquisa fundamenta-se na pedagogia de Paulo Freire, especialmente nas categorias de práxis, dialogicidade, leitura de mundo e educação como prática política, em diálogo crítico e delimitado com Dermeval Saviani quanto à mediação pedagógica e ao direito ao conhecimento sistematizado. Metodologicamente, adotou-se abordagem[C1] [SS2] qualitativa, compreendendo a Pesquisa Participante como fundamento ético-político da relação entre universidade, escola e sujeitos da EJA. Os dados foram produzidos por meio de entrevistas semiestruturadas com docentes e coordenação pedagógica, registros de campo, observações de atividades formativas na Horta Sensorial Tecnológica, visitas mediadas a espaços educativos não escolares, como a Sabina — Escola Parque do Conhecimento, o Parque Tangará e o Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo, além da análise de materiais autorais, como apostila, jornal escolar e documentário do projeto. O corpus foi examinado por meio da Análise de Conteúdo, com triangulação entre dados empíricos e referencial teórico, resultando em quatro categorias: Formação Docente e Ressignificação da Prática Pedagógica; Saberes da EJA e Alfabetização Científica; Interdisciplinaridade e Construção Coletiva do Conhecimento e Extensão Universitária, Protagonismo e Participação na EJA. Os resultados indicam deslocamentos na práxis docente, expressos na reorganização do planejamento, na valorização dos saberes dos educandos, no fortalecimento do trabalho interdisciplinar, na produção coletiva de materiais e na aproximação entre conhecimentos científicos e experiências cotidianas. No âmbito discente, observam-se indícios de ampliação de repertórios culturais e científicos, circulação em espaços institucionais e fortalecimento de vínculos de pertencimento e participação. Tais processos, contudo, não são compreendidos como lineares ou homogêneos. A tese contribui ao indicar que a articulação entre escola pública, universidade pública, extensão universitária e experiências de educação não formal em espaços educativos não escolares pode constituir mediação formativa relevante para a EJA, desde que orientada pelas demandas concretas dos sujeitos, pela valorização de seus saberes e pelo direito à ciência como bem cultural, apropriável criticamente e não como verdade superior ou salvadora.