Maternidades Ambivalentes: Gênero, trabalho e cuidado nas trajetórias de mulheres-mães trabalhadoras do Grande ABC
O presente trabalho contribui para a compreensão dos modos pelos quais mulheres-mães trabalhadoras, residentes da Região do Grande ABC, articulam o trabalho do cuidado e o trabalho assalariado, bem como quais os potenciais sentidos construídos no seio de relações interpessoais e da nova perspectiva que surgem com o tornar-se mãe, através da análise de suas trajetórias e experiências, presentes em suas narrativas. Em sociedades capitalistas modernas, a divisão sexual do trabalho atribui às mulheres o exercício não remunerado, ou precarizado, do trabalho reprodutivo, nele contido o trabalho do cuidado (Federici, 2019; Fraser, 2016; Hirata & Kergoat, 2007; Hirata & Guimarães, 2012). Contemporaneamente, a inserção feminina no mercado de trabalho assalariado ocorre sob limitações de espaço, qualidade dos vínculos e dupla jornada (Biroli, 2018), condição que se agrava diante da maternidade (Guiginski & Wajnman, 2022). Partindo de uma perspectiva do “nó” de Saffioti (2015) o estudo enfoca experiências de mães trabalhadoras consideradas aos seus diferentes posicionamentos de raça e classe, observando-se, também a literatura análoga relacionada à interseccionalidade (Davis, 2016; Collins & Bilge, 2021). A maternidade, como eixo interseccional, surge como categoria ambivalente: como aprofundamento da opressão de gênero, ao mesmo tempo como fonte de potencialidades de resistências de mulheres (O’Reilly, 2019; Barbosa, 2019). Nas suas experiências (Thompson, 1981) e trajetórias, observaremos as estratégias utilizadas por elas enquanto ocupantes de dois espaços: doméstico – do trabalho reprodutivo, do cuidado, e externo, do trabalho assalariado, na vida pública. A estratégia da flexibilização dos vínculos de trabalho, encontrada nos relatos das mulheres-mães trabalhadoras, é investigada em sua dubiedade: como elemento precarizante, bem como forma de resistência, possibilitando a construção de autonomia financeira e pessoal destas mulheres. Ainda, foram investigadas práticas de resistências e microrresistências (Scott, 2013) pautadas em afeto, em suas diversas conformações, em que mulheres-mães, para além da instituição da maternidade e da utilidade desse afeto em um Estado neoliberal, desenvolvem na experiência da maternagem, potencialidades nas relações construídas junto às suas comunidades, a outras mães (sororidade materna) e à sua família, no contexto das subjetividades do trabalho do cuidado, e a sua importância na construção de perspectivas de si e do social. Para o desenvolvimento da pesquisa, sob o método qualitativo, em história oral, foram realizadas entrevistas semiestruturadas, com 8 (oito) mulheres-mães trabalhadoras residentes na Região do Grande ABC (SP), complementadas por questionário aplicado a 50 mães trabalhadoras, bem como por estatísticas de gênero disponibilizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O referencial teórico abrange a literatura sobre gênero, divisão sexual do trabalho, maternidade, precarização do trabalho e resistência das classes subalternas.