A PROMESSA DA PORTA ABERTA: BIBLIOTECA PÚBLICA, UNIVERSALISMO E DESIGUALDADE
Esta tese examina a forma institucional contraditória da biblioteca pública contemporânea, a partir de pesquisa de campo realizada na Biblioteca Mário de Andrade (BMA), em São Paulo. O argumento central articula-se em torno do que se denomina paradoxo da porta aberta: a abertura universal que legitima historicamente a biblioteca pública não elimina a necessidade de regular, de modo desigual, as condições concretas de permanência dos diferentes públicos que a frequentam. A distinção analítica entre entrar e permanecer fundamenta a investigação das mediações cotidianas — materiais, institucionais e simbólicas — que organizam a convivência entre públicos heterogêneos. A noção de lugar de leituras, formulada ao longo da pesquisa, designa o processo pelo qual cada frequentador interpreta o ambiente institucional e constrói seu modo de presença a partir dessa leitura. O trabalho de campo mobilizou observação sistemática, entrevistas semiestruturadas com frequentadores e funcionários e análise de documentos institucionais. A análise mostra que a biblioteca pública não é contraditória apesar de seu universalismo, mais precisamente porque ele se realiza em uma ordem urbana desigual. A forma institucional da biblioteca aparece, assim, como lugar de encontro entre universalismo normativo e diferenciação social concreta. A presença de pessoas em situação de rua funciona como operador analítico privilegiado para tornar visíveis os critérios cotidianos de aceitabilidade, tolerância e legitimidade que organizam a permanência no interior da instituição.