MATERNIDADES SUBJUGADAS PELA PRISÃO:
Estratégias de governança reprodutiva e a mortificação do eu-mãe
Esta dissertação analisa como o sistema prisional atua sobre os vínculos materno-filiais de mulheres presas e egressas, regulando as possibilidades de cuidado, produzindo rupturas e fragilizando o exercício da maternidade. A pesquisa articula os conceitos de justiça reprodutiva, governança reprodutiva e mortificação do eu-mãe, categoria construída, em diálogo com Erving Goffman, para compreender processos que atingem a identidade materna e as condições concretas de maternar com o encarceramento. A investigação adota abordagem qualitativa, situada e interseccional, combinando revisão bibliográfica, análise documental e observação participante em ações de acolhimento durante saídas temporárias, no CPP Feminino do Butantã, e acompanhamento de trajetórias de mulheres egressas. O trabalho demonstra que os efeitos da prisão sobre a maternidade não se encerram com a saída da prisão, mas permanecem no pós-cárcere por meio de obstáculos jurídicos, econômicos, familiares, institucionais e subjetivos que limitam a reconstrução dos vínculos e as possibilidades concretas de cuidado. A dissertação sustenta, assim, que o sistema prisional integra um processo mais amplo e contínuo de governança reprodutiva, atravessado por desigualdades de raça, classe e gênero, que permanece regulando quais maternidades podem ser exercidas, reconhecidas e legitimadas.