A presente pesquisa investiga a violência contra a mulher na região do ABC Paulista, focando na tensão entre o discurso institucional de proteção e as práticas violentas que persistem no cotidiano. O objetivo central é analisar se o amplo aparato legal e de acolhimento existente na região, como as Delegacias de Defesa da Mulher (DDM), anexos de violência doméstica e patrulhas especializadas, é suficiente para reduzir a incidência da violência ou se ela apenas assume formas mais veladas, especialmente nas classes médias. Metodologicamente, o trabalho adota as epistemologias interseccional e decolonial, buscando compreender como gênero, raça e classe se articulam no fenômeno da violência sem universalizar a experiência feminina. A pesquisa divide-se em um levantamento documental e análise de reportagens sobre feminicídio no jornal Diário do Grande ABC (2015-2024) e na aplicação de questionários exploratórios com homens e mulheres da região para verificar a percepção sobre a prática da violência. A fundamentação teórica ancora-se na perspectiva materialista de Heleieth Saffioti, que descreve o "nó" entre patriarcado-racismo-capitalismo e a função do lar como "fortaleza"; na antropologia de Rita Segato, que define a violência como um enunciado comunicativo dirigido à fratria através do mandato de masculinidade; e no pós-estruturalismo de Judith Butler, que desbiologiza o sexo e genero revelando o quanto eles são resultados de uma performance exaustivamente reproduzida. A análise é expandida por Connel através da percepção de masculinidades plurais e por Bell Hooks que generosamente ensina sobre patriarcado psicológico e a automutilação psíquica. O conceito de casa-dos-homens de Daniel Welzer-Lang explica o processo de dessensibilização e o treinamento do homem como um soldado da estrutura e Sócrates Nolasco complementa o tema ao conectar a crise da identidade masculina à perda do papel de provedor no cenário industrial do ABC. Os resultados parciais indicam que, enquanto o feminicídio letal é mais visível nas camadas populares, a violência moral e psicológica opera como uma ferramenta de manutenção de status e controle nas classes mais abastadas, evidenciando que a violência não é um instinto biológico, mas um mecanismo de restauração de uma soberania masculina em constante crise.