ENTRE REGISTROS E APAGAMENTOS: a LGBTfobia institucional na estatística da violência no Estado de São Paulo e no ABC Paulista
Este trabalho analisa como a LGBTfobia institucional se manifesta na produção estatal de dados sobre violência, a partir de uma análise documental dos registros criminais da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo entre 2019 e 2023, com foco no ABCPaulista. A pesquisa parte da hipótese de que as ausências e distorções presentes nas bases oficiais não decorrem apenas de limitações operacionais, mas refletem formas de classificação influenciadas por normas cisheteronormativas e por padrões históricos de reconhecimento desigual.A investigação compara informações obtidas via Lei de Acesso à Informação com dados divulgados no Anuário Brasileiro de Segurança Pública e por organizações da sociedade civil. Esse confronto evidencia discrepâncias que revelam um reconhecimento limitado da violência contra pessoas LGBT+. A análise dos materiais disponibilizados pela SSP/SP identifica problemas estruturais, como a inexistência de campos identitários em determinados períodos, o preenchimento irregular de marcadores e a falta de uniformidade entre categorias, fatores que condicionam o que aparece nas estatísticas e reduzem a compreensão do fenômeno.O estudo mobiliza debates sobre reconhecimento, precariedade, abjeção e violência institucional para compreender como determinadas experiências ganham visibilidade enquanto outras permanecem sem inscrição administrativa. Ao articular essas reflexões com discussões sobre biopolítica, o trabalho mostra que a maneira como o Estado registra e organiza informações define os limites do que se torna legível como violência. Esse enquadramento evidencia a necessidade de políticas de registro que considerem a complexidade das violações que atravessam a população LGBT+ e indica como a produção estatal de dados influencia diretamente a formulação de respostas públicas.