SULFLURAMIDA NO SISTEMA CANTAREIRA: Variáveis Ambientais em Microcosmos Aquáticos
A sulfluramida (EtFOSA) é um inseticida utilizado no controle de formigas cortadeiras, pertencente à classe dos compostos perfluoroalquílicos (PFAS). Sua degradação pode gerar perfluorooctano sulfonamida (FOSA) e perfluoroctanosulfonato (PFOS), poluentes persistentes (POP), reconhecidos por sua elevada estabilidade e toxicidade. O presente estudo teve como objetivo avaliar o destino ambiental da sulfluramida em microcosmos aquáticos, com ênfase nos processos físico-químicos e na dinâmica de transformação das matrizes ambientais (sedimento, água e macrófita aquática) ao longo de 60 dias. Os microcosmos simularam as condições do Sistema Cantareira, principal manancial da Região Metropolitana de São Paulo. Montaram-se 52 microcosmos, com água e sedimento do reservatório de Atibainha e a macrófita aquática, Salvinia auriculata, distribuídos em 2 grupos: Controle (sem adição de EtFOSA) e Tratamento (com EtFOSA, 10 ng.mL-1). Monitoraram-se variáveis físico-químicas (temperatura, condutividade elétrica, sólidos totais dissolvidos, pH e turbidez), as concentrações de EtFOSA, FOSA e PFOS nos compartimentos aquático e sedimentar, o teor de carbono orgânico na água e no sedimento, e a composição isotópica de carbono (δ¹³C) na macrófita Salvinia auriculata. A extração foi realizada a análise por cromatografia líquida de ultra performance acoplada à espectrometria de massas (UPLC-MS). Os dados foram submetidos à análise de variância (ANOVA) e ao teste de Tukey (α = 0,05). Os resultados evidenciaram rápida dissipação do EtFOSA da fase aquosa, com meia-vida de 0,59 dia, e transformação sequencial em FOSA e PFOS, conforme a via EtFOSA → FOSA → PFOS. O sedimento atuou como o principal compartimento de retenção dos compostos, especialmente do PFOS, que apresentou acúmulo progressivo e elevada persistência. As variáveis físico-químicas não apresentaram diferenças significativas entre os grupos, indicando que a adição do contaminante não alterou esses parâmetros de forma mensurável. Em S. auriculata, observaram-se efeitos fitotóxicos progressivos, com necrose foliar acentuada a partir do 40º dia, associados à assimilação do EtFOSA isotopicamente marcado, evidenciada pelo enriquecimento nos valores de δ¹³C. Conclui-se que a sulfluramida é rapidamente particionada para o sedimento e biotransformada em PFOS, composto de elevada persistência e afinidade por matrizes sólidas. A assimilação dos contaminantes pela macrófita reforçam a necessidade de considerar, em avaliações de risco ambiental, não apenas a persistência de precursores de PFAS, mas também sua biodisponibilidade e impactos ecológicos.