Investigação do estado inflamatório vascular em modelo de lesão renal aguda: efeito do P-cresil sulfato sobre a sinalização purinérgica
O p-cresil sulfato (PCS) é uma toxina urêmica cujo acúmulo em doenças renais está associado ao estresse oxidativo e à disfunção vascular. A sinalização purinérgica, por sua vez, exerce papel crítico na regulação da homeostase vascular e da resposta inflamatória. Este estudo teve como objetivo investigar a modulação de componentes purinérgicos e inflamatórios na aorta de camundongos submetidos a um modelo de lesão renal aguda (LRA), associado ao tratamento com PCS (20 mg/L/dia por 15 dias), por meio de análises moleculares, bioquímicas e abordagens in silico. Para este estudo, os animais foram divididos em quatro grupos experimentais: Sham+Salina (animais submetidos à cirurgia simulada), Sham+PCS (cirurgia simulada com administração de PCS), IR+Salina (animais submetidos à isquemia e reperfusão renal com administração de veículo salina) e IR+PCS (animais submetidos à isquemia e reperfusão renal com administração de PCS). As análises morfométricas demonstraram que a LRA promoveu uma redução significativa na massa renal esquerda de 29,73% entre os grupos Sham+salina e IR+salina, e uma redução de 26,47% entre os grupos Sham+PCS e IR+PCS, dados esses que são esperados para o modelo utilizado. Ainda as dosagens de toxinas urêmicas no plasma, mostram um aumento de Indoxil sulfato (IS) e PCS, que juntamente aos dados de análise morfométrica, mostram que o modelo de lesão renal por IR foi atingido. Os resultados demonstraram que a LRA associada ao PCS modificou significativamente a sinalização purinérgica em leito vascular distante do rim, evidenciada pela redução de 90,02% na expressão gênica do receptor vasoprotetor P2X4R (IR+Salina>IR+PCS) e um aumento robusto de 70,0% (IR+Salina<IR+PCS) e 53,0% (Sham+PCS<IR+PCS) nos transcritos de P2Y1R. Ainda, observou-se um acréscimo expressivo de 363,8% (IR+Salina<IR+PCS) e 188,8% (Sham+PCS<IR+PCS) na expressão de P2Y2R. Os receptores P2Y1 e P2Y2 são associados à ativação plaquetária e recrutamento de leucócitos, sugerindo uma exacerbação da inflamação vascular. Em contraste, também foi observada uma resposta adaptativa do sistema adenosinérgico, com superexpressão de 194,5% (Sham+PCS<IR+PCS) do gene A1R, 290,2% (IR+salina<IR+PCS) e 131,8% (Sham+PCS<IR+PCS) deA2AR, e 2891% (IR+salina<IR+PCS) e 137,4% (Sham+PCS<IR+PCS) de A3R, além dos transcritos da enzima ecto-5’-nucleotidase em 99,1% (IR+salina<IR+PCS) e 106,1% (Sham+PCS<IR+PCS), destacando uma resposta regulatória com o objetivo de restaurar a homeostase vascular após a LRA por IR em associação ao PCS. Apesar dos resultados encontrados em nível gênico, as análises histomorfométricas não revelaram diferenças significativas na espessura da parede vascular, na densidade de colágeno ou na integridade das fibras elásticas entre os grupos experimentais. As análises in silico reforçaram a relevância do eixo adenosinérgico nas respostas encontradas, demonstrando uma interação estável e de alta afinidade do PCS com o receptor A2a. Portanto, os dados indicam que o PCS potencializa a inflamação vascular na LRA por meio da modulação da via purinérgica mediada pelos receptores P2, enquanto o sistema adenosinérgico atua como mecanismo central de resposta adaptativa precoce à lesão, precedendo alterações estruturais macroscópicas na aorta. A elucidação dos mecanismos moleculares pelos quais a LRA associada à uremia leva a alterações na resposta imune e na sinalização purinérgica da aorta são de altíssimo interesse no sentido de aprofundar o conhecimento existente sobre esta patologia, bem como direcionar futuras abordagens preventivas e terapêuticas para esta condição, a partir da manipulação dos componentes da sinalização mediada por nucleotídeos, visando minimizar os impactos da lesão renal nos pacientes de unidades intensivas acometidos por LRA por injúria e reperfusão e/ ou uremia.