IMPACTO DA LESÃO RENAL AGUDA SOBRE A SINALIZAÇÃO PURINÉRGICA NO TECIDO ADIPOSO PERIVASCULAR (PVAT) DE AORTA
A lesão renal aguda (LRA) é a abrupta perda da capacidade dos rins de filtrar os resíduos metabólicos do sangue, podendo causar inflamação sistêmica e afetar outros órgãos, com a liberação de citocinas próinflamatórias e aumento na produção de espécies reativas de oxigênio (EROs). Em condições fisiológicas, o tecido adiposo perivascular (PVAT) tem papel anti-contrátil, liberando componentes como óxido nítrico (NO) e adiponectina. Em patologias como a hipertensão arterial, no entanto, pode sofrer disfunção, liberando fatores pró-contráteis e próinflamatórios, além de EROs. A sinalização purinérgica também participa da modulação vascular e inflamatória, com o ATP atuando como padrão molecular associado ao dano (DAMP) e a adenosina com efeitos antiinflamatórios. Este estudo teve como objetivo avaliar o efeito da LRA por isquemia e reperfusão (IR) sobre a sinalização purinérgica no PVAT da aorta torácica de camundongos. Para isso, primeiro foi realizada análise de RNAseq de tecidos renais de camundongos submetidos à isquemia e reperfusão renal, obtendo-se como resultado 10.418 genes diferencialmente expressos (8197 foram superexpressos no grupo controle e 2221 no grupo IR). Entre os genes de interesse para este estudo, incluindo componentes da sinalização purinérgica e moléculas inflamatórias, A2A, P2Y2, P2Y1 e IL-1β apresentaram expressão aumentada, enquanto P2X4, A2B, NTPDase4 e fosfatase alcalina apresentaram expressão diminuída no grupo IR. Dados de um outro projeto, contendo análises de RNAseq de aorta de ratos submetidos à uremia obteve-se 2126 transcritos diferencialmente expressos (p<0,05) na comparação entre os grupos controle e uremia (691 superexpressos no controle e 1435 superexpressos na uremia). Marcadores de linhagem osteocondrogênica foram altamente expressos na uremia, além dos genes das ectonucleotidases Enpp1 e Enpp3 estarem superexpressos na também nessa condição. Para os estudos in vivo, foi realizada isquemia unilateral do pedículo renal esquerdo por 60 minutos, seguida de remoção do clipe microvascular e reperfusão por 8 (grupo IR8d) ou 15 dias (grupo IR15d). Os animais do grupo Sham (controle) não foram submetidos à oclusão do pedículo renal, apenas à abertura da cavidade abdominal, e foram eutanasiados após 15 dias. A partir das análises estatísticas dos dados, observou-se diferenças significativas entre os grupos experimentais Sham e IR15d e entre IR8d e IR15d com relação à razão do peso do rim esquerdo pelo comprimento da tíbia (LKW/TL) (P<0,0001) e com relação ao peso do rim esquerdo pelo peso corpóreo (LKW/BW) (P<0,0001), apontando uma diminuição do peso do rim esquerdo, sugerindo remodelamento renal, com possível atrofia após 15 dias de reperfusão. Observou-se também aumento significativo do peso do rim direito em relação ao peso corpóreo (RKW/BW) no grupo IR8d em relação ao Sham (P<0,05) e no IR15d em relação ao Sham (p<0,01), demonstrando aumento da massa do rim contralateral ao isquemiado como possível mecanismo compensatório para manter a função renal adequada. Com relação à avaliação da expressão gênica de enzimas pró e antioxidantes no PVAT, observou-se aumento significativo da expressão de NOX4 e eNOS no grupo IR8d em comparação ao Sham (p<0,05), indicando maior produção de EROs no PVAT dos animais isquemiados. No caso da eNOS, os dados podem significar maior aumento na produção de EROs, caso ela esteja desacoplada, ou maior produção de NO, caso ela esteja acoplada. A expressão de SOD2 foi diminuída significativamente no grupo IR8d em comparação ao grupo Sham, podendo indicar desbalanço redox em um primeiro momento, se levarmos em consideração que além da menor expressão de SOD2, enzima antioxidante, também temos maior expressão de NOX4 e possivelmente de eNOS desacoplada. Por fim, houve aumento significativo de SOD2 no grupo IR15d em relação ao IR8d, sugerindo tentativa de recuperação da homeostase redox no PVAT. A sinalização purinérgica no PVAT da aorta também foi modulada em resposta à LRA, mostrando aumento na expressão gênica de P2Y6R e P2X4R após 8 dias de reperfusão (p<0,05), apontando para o aumento do perfil inflamatório nestes animais. No mesmo período, foi observado aumento da expressão de NTPDase 1 e 2 (p<0,05), como possível mecanismo de remoção do excesso de ATP liberado. Por fim, a expressão do receptor A1R de adenosina se mostrou aumentada no grupo IR15d tanto em relação ao grupo Sham (p<0,01) quanto ao grupo IR8d (p<0,001), sugerindo transição da fase inflamatória do PVAT da aorta aos 8 dias de reperfusão para uma fase adaptativa aos 15 dias de reperfusão pós isquemia renal. Os resultados do presente estudo sugerem que a LRA induzida por IR pode desencadear disfunção no PVAT da aorta, possivelmente mediada pelo aumento da produção de moléculas pró-inflamatórias, pela elevação de espécies reativas de oxigênio e pela maior expressão de receptores purinérgicos associados a respostas inflamatórias. Uma limitação importante deste estudo foi a impossibilidade de avaliar diretamente a função vascular, em decorrência de restrições técnicas. Ainda assim, nossos achados indicam que o PVAT de leitos vasculares distantes do rim, em particular a sinalização purinérgica nesse tecido, devem ser considerados em contextos de LRA, especialmente em períodos breves de reperfusão, uma vez que em tempos mais tardios o tecido demonstrou recuperação da homeostasia nos parâmetros avaliados.