NANOESPECTROSCOPIA VIBRACIONAL E FERRAMENTAS ÔMICAS APLICADAS AO ESTUDO E CARACTERIZAÇÃO DE VESÍCULAS EXTRACELULARES NO CONTEXTO URÊMICO
De acordo com o KDIGO (do inglês Kidney Disease: Improving Global Outcomes), publicado anualmente, a lesão renal aguda (AKI, do inglês acute kidney injury) é definida como a presença de uma ou mais anormalidades na função ou estrutura renal em contexto clínico ocorrido em 7 dias. De forma direta, um dos fortes contribuintes para o desenvolvimento de complicações associadas à AKI é a diminuição da capacidade de excreção de metabólitos chamados toxinas urêmicas (UT, do inglês uremic toxins) que mesmo em cenários de terapia dialítica, se acumulam nos tecidos do paciente. Duas das mais investigadas toxinas urêmicas ligadas à proteína, por sua toxicidade especialmente a nível cardiovascular, são o indoxil sulfato (IS) e o p-Cresil sulfato (PCS). Tais toxinas podem induzir a formação de vesículas extracelulares (EVs, do inglês extracelular vesicles), como já confirmado na literatura, mas em contexto agudo de alterações urêmicas da AKI, a assinatura molecular dessas EVs ainda é desconhecida. Desta forma, o presente projeto teve como objetivo avaliar o impacto do IS e do PCS nas características de EVs utilizando linhagens celulares renais tratadas por 6h na concentração urêmica aguda de 1,5 mM de cada toxina. A segunda parte deste trabalho se concentrou na caracterização das EVs plasmáticas de camundongos controle por microscopia de força atômica associada à espectroscopia de infravermelho (AFM-IR, do inglês atomic force microscopy infrared spectroscopy), visando a aplicação de tal ferramenta na investigação dessas vesículas e o impacto da técnica de isolamento das EVs em seu espectro. Os resultados de lipidômica e metabolômica de EVs do modelo in vitro apresentaram assinaturas citotóxicas e de estresse oxidativo, sugerindo um remodelamento da biogênese dessas EVs para a eliminação e sinalização através de ceramidas e bases esfingóides. Adicionalmente, o AFM-IR foi comprovado como uma ferramenta válida para a caracterização de EVs plasmáticas, onde foi possível observar o impacto direto da técnica de isolamento na assinatura bioquímica das EVs, bem como o isolamento que melhor preservou uma boa correlação entre topografia e espectro da EV. Como próximos passos, caracterizações ortogonais das EVs plasmáticas serão realizadas, bem como a investigação de sua assinatura proteica por proteômica e espectral por AFM-IR. Análises da proteômica das EVs do modelo in vitro também estão em andamento, visando uma investigação do impacto do IS e do PCS a nível sistêmico dessas EVs (EVs totais do modelo in vivo), em nível celular (EVs totais do modelo in vitro) e em nível individualmente heterogênico dessas EVs por AFM-IR.