O PAPEL DAS CÉLULAS ENTEROENDÓCRINAS NA MODULAÇÃO DA INFLAMAÇÃO INTESTINAL
O intestino constitui uma interface crítica entre o organismo e o meio externo, cuja função de barreira é assegurada pela atuação integrada e compartimentalizada da microbiota intestinal, da camada de muco, das células epiteliais intestinais e das células imunes residentes na mucosa. Entre as populações que compõem o epitélio intestinal, as células enteroendócrinas (CEEs) destacam-se por sua capacidade de sintetizar e secretar hormônios reguladores de funções digestivas e homeostáticas, exercendo, adicionalmente, papel modulatório sobre a ativação de células imunológicas e sobre o processo inflamatório da mucosa intestinal. Alterações na diferenciação e na atividade secretora das CEEs têm sido implicadas na fisiopatologia das doenças inflamatórias intestinais (DIIs), como a doença de Crohn e da colite ulcerativa, ainda que os mecanismos moleculares subjacentes a essa relação permaneçam apenas parcialmente elucidados. Assim, o objetivo deste trabalho é explorar como a disfunção das CEEs contribui para a patogênese da UC e investigar os efeitos do aumento da quantidade dessas células no prognóstico da doença. Nesse contexto, o presente estudo teve por objetivo estabelecer e caracterizar organoides intestinais derivados do intestino delgado e do cólon de camundongos, bem como induzir a diferenciação da linhagem enteroendócrina nesses modelos, com vistas à constituição de uma plataforma experimental para a investigação da contribuição das CEEs à fisiopatologia da inflamação intestinal. A caracterização morfológica evidenciou, em ambos os segmentos intestinais, progressão estrutural compatível com processos de proliferação, diferenciação e auto-organização epitelial ao longo do período de cultivo, ao passo que a análise da expressão gênica por RT-qPCR confirmou a presença de marcadores representativos das principais populações epiteliais, incluindo células-tronco intestinais, células de Paneth, células caliciformes, enterócitos e CEEs, corroborando a capacidade do modelo de recapitular a heterogeneidade celular do epitélio intestinal in vivo. A indução da diferenciação enteroendócrina promoveu redução significativa da expressão de MUC2, acompanhada de tendência de diminuição de marcadores de células-tronco (Lgr5), células de Paneth (Lyz1) e enterócitos (SIS), e de aumento significativo da expressão de hormônios notadamente secretados pelas CEEs. Peptídeo YY (PYY), na ausência de alterações significativas em Cromogranina (CHGA), (GCG) e polipeptídeo inibidor gástrico (GIP), achado que sugere o enriquecimento seletivo de uma subpopulação de CEEs com perfil secretor voltado predominantemente à produção de PYY. Em conjunto, os resultados obtidos sustentam a utilização dos organoides intestinais como modelo experimental para a investigação da contribuição das CEEs à homeostase e à disfunção imunológica no intestino, fornecendo subsídios para o desenvolvimento das etapas subsequentes deste projeto de mestrado.