A Influência da Memória Operacional na Alfabetização e seus Correlatos Neurais.
O objetivo do trabalho foi investigar como as respostas hemodinâmicas pré-frontais relacionadas à memória de trabalho se modificam ao longo da alfabetização e se apresentam em populações com diferentes trajetórias de aprendizagem. Participaram 18 crianças no início da alfabetização, das quais 16 foram reavaliadas sete meses depois, e 23 adultos matriculados em um curso comunitário de alfabetização. O protocolo reuniu tarefas de repetição direta e inversa de dígitos, uma narrativa quasi-naturalística e medidas de leitura, linguagem e memória, com avaliação das concentrações de HbO e HbR por meio de fNIRS. Entre as avaliações, as crianças apresentaram melhora na Leitura de Palavras (+30 pontos percentuais) e na evocação tardia do Brown-Peterson, sem diferença detectável na repetição de dígitos. A resposta pré-frontal média também se modificou, mas não foi encontrada associação longitudinal entre as mudanças comportamentais e hemodinâmicas. A conectividade residual não apresentou modulação significativa após correção, embora seus perfis preservassem identificabilidade longitudinal acima do acaso. O principal achado emergiu da organização temporal da resposta à narrativa. Em T1, a sincronização intersujeitos concentrou-se na vlPFC direita, única região com lateralização confirmada na narrativa completa (q = 0,0024), e o GLM apontou a mesma região durante a evocação (pBonf = 0,0403). Em T2, o alinhamento tornou-se detectável na vlPFC esquerda em uma janela curta ancorada no início da pergunta (q = 0,0240), enquanto em T1 se sustentou em escala temporal mais ampla. Nas mesmas 16 crianças, a lateralidade foi encontrada mais a esquerda em HbO (Δ = +0,234; q = 0,026) e HbR (Δ = +0,269; q = 0,0003). Os adultos, com baixa proficiência em leitura e expostos à narrativa de T1, apresentaram tendência de lateralização à direita, sem confirmação após correção. Amplitude e alinhamento temporal, portanto, convergiram espacialmente em T1, mas apresentaram trajetórias longitudinais distintas. Enquanto a amplitude média não evidenciou reorganização hemisférica correspondente, a sincronização entre participantes revelou um deslocamento da organização funcional da vlPFC para a esquerda. Em conjunto, os resultados sugerem que mudanças associadas ao período inicial da alfabetização podem se manifestar não apenas na magnitude da ativação pré-frontal, mas também na organização temporal e hemisférica compartilhada da resposta neural.