Associação entre Metaestabilidade Global e Variabilidade do Conectoma Funcional em fMRI
O acúmulo de evidências em neuroimagem indica que o funcionamento cerebral é predominantemente global, idiossincrático e dinâmico. Quantificar satisfatoriamente como esse sistema reconfigura sua organização e variabilidade funcional frente às demandas cognitivas tornou-se pertinente ao campo. Apesar disso, a abordagem dessas duas propriedades ainda ocorre de forma consideravelmente independente. Esforços recentes para preencher essa lacuna demonstraram uma relação entre avalanches neuronais e identificação funcional em dados de MEG em repouso. Estes achados estimulam testar essa convergência em outra modalidade de neuroimagem, com outras medidas consonantes e em distintos desenhos experimentais. Assim, o objetivo desta tese é investigar a relação entre metaestabilidade global e identificação do conectoma funcional em dados de fMRI em diferentes tarefas cognitivas, indivíduos, estímulos e escalas espaciais. Para tal, analisou-se dados de longa duração de três bancos distintos: Human Connectome Project (n=20; ~38 min. por sujeito), Midnight Scan Club (n=10; 300 min. por sujeito) e Naturalistic Neuroimaging Database (n=38; 91 - 113 min. por sujeito). Para cada indivíduo, considerando o cérebro inteiro (333 regiões) e 8 redes funcionais, foi extraída a assinatura aproximada de metaestabilidade global, baseada no desvio-padrão da dispersão espacial das regiões. Essa assinatura foi utilizada num modelo misto para prever duas medidas baseadas no conectoma funcional: a estabilidade dentro do indivíduo (Iself) e a similaridade entre indivíduos (Iothers). Foi encontrada uma relação negativa entre metaestabilidade e identificação funcional nos três bancos de dados, maior e negativa com Iothers e com direção contexto-dependente com Iself. O perfil dessa associação variou a depender da escala espacial (global e local), da tarefa cognitiva, do indivíduo e seu estado de consciência, e do tipo de estímulo narrativo. Esses resultados contribuem com a literatura ao (i) confirmar, em fMRI, a relação observada em MEG; (ii) demonstrar que a relação é consistente mas contexto-dependente; (iii) questionar a hipótese que estabilidade do conectoma é o principal vínculo entre metaestabilidade e identificação funcional; (iv) fundamentar trabalhos futuros que exploram o papel dessa relação em demais contextos cognitivos, clínicos e naturalísticos em fMRI.