Desenvolvimento de Sistema para Investigação da Percepção Auditiva e seu Uso na Análise de Vieses de Estimativa de Azimute
Humanos localizam fontes sonoras com boa acurácia e precisão no plano azimutal: em experimentos psicofísicos usando alto-falantes, estimativas de azimute não apresentam viés e têm baixa variabilidade. Em contrapartida, dois vieses são descritos em experimentos usando fones de ouvido: (1) superestimação frontal (sendo θ o módulo do azimute da fonte sonora em relação ao nariz, valores de θ<45° são estimados em θ<60°); e (2) subestimação periférica (θ>60° estimados como θ≈60°). Nosso estudo pretende determinar o papel de diferentes fatores na produção destes vieses. Para tanto, construímos um aparato que permite variar sistematicamente a posição de um falante no espaço; com ele, replicamos achados clássicos de ausência de viés na estimação de azimute para diversos estímulos sonoros. Portanto, parece que os vieses reportados na literatura se devem a alterações no som associadas ao uso de fones de ouvido. Já que não existe filtragem acústica individual pela cabeça e orelhas ao usar fones de ouvido, os sons podem ter características que não ocorreriam naturalmente: (1) as pistas de diferenças interaurais de tempo (ITD) e de intensidade do som (ILD) podem indicar azimutes diferentes; (2) as pistas de rampa de subida podem ser artificialmente longas ou inexistentes; (3) as reverberações podem ser incompatíveis com as dos ambientes naturais. A fim de isolar cada um destes fatores, realizamos experimentos com fones de ouvido variando o tipo de som (e.g.: ruído branco, tom puro), levando em conta a filtragem acústica individual (captada pela função de transferência relacionada à cabeça, HRTF), manipulando então as pistas de ITD e ILD (em conjunto e individualmente), bem como as rampas de subida e descida da amplitude do estímulo sonoro. Mesmo nas condições com fones de ouvido que mais se aproximavam de experimentos com alto-falantes (portanto sem viés), ainda observamos a subestimação, indicando que algum fator adicional deve ser responsável por este viés. Já a superestimação foi observada apenas em um único experimento, que apresentava diversos problemas metodológicos de controle de pistas. Ajustando estes problemas, o resultado se aproxima daquele obtido com alto-falantes, sem vieses. Quando neutralizamos a ILD, variando apenas a ITD, surge apenas o viés de subestimação. Quando, além disso, aplicamos uma rampa de subida de 25 ms (artificialmente lenta), essa subestimação aumenta. Portanto, nossos achados indicam que o viés de superestimação é puramente um artefato, reprodutível somente em condições altamente degradadas. Já o viés de subestimação surge em experimentos com fone de ouvido quando o estímulo contém apenas a pista de ITD (como a maioria dos experimentos da literatura, em que a ILD é ajustada a zero, correspondente a um azimute de 0°), e aumenta com a rampa de subida lenta. Em síntese, analisamos a origem desses vieses na estimação azimutal, demonstrando que se devem à artificialidade introduzida pelos fones de ouvido nas pistas acústicas.