Caracterização de sistemas epigenéticos na relação do estresse com o neurodesenvolvimento por meio de análise de redes complexas
O desenvolvimento de organismos vivos, incluindo humanos, se dá por um processo dinâmico e complexo no qual o ambiente exerce importante influência. A epigenética nesse contexto é um campo de estudos que oferece explicações sobre a forma através da qual o sistema biológico incorpora informações obtidas do ambiente alterando seu fenótipo e processos internos de modo consistente e auto-sustentável. Os mecanismos epigenéticos, como pequenos RNAs não codificantes (sncRNAs), são essenciais no processo de desenvolvimento e neurodesenvolvimento. A questão central deste trabalho diz respeito a influência do estresse no inicio da vida e suas consequências sobre o neurodesenvolvimento, reconhecendo entretanto a necessidade de esclarecer os processos intermediários, ou seja, as alterações biológicas e sistemas recrutados em resposta ao estresse que promovam os diferentes desfechos de desenvolvimento. Usualmente esse processo é investigado de modo reducionista, avaliando os elementos do sistema independentemente, o que limita a descrição do fenômeno. Nesse sentido, o presente trabalho investiga a relação do estresse com sncRNAs e sua coordenação através de métodos estatísticos e de análise de redes, contemplando dois períodos críticos: (I) o pré-concepcional, em uma coorte na qual foram avaliados espermatozoides, e (II) o gestacional, em outra coorte que envolveu análise de dados placentários e do sangue materno. Além disso, foi desenvolvido um método original denominado análise de redes de co-regulação sinérgica para avaliar a coordenação de sncRNAs pela integração de múltiplos tipos de dados. Também foi examinada a influência da interação entre citocinas e estresse psicossocial materno, durante a gestação, sobre o neurodesenvolvimento nos dois primeiros anos de vida. De forma geral, este trabalho corrobora a importância das citocinas para o neurodesenvolvimento e sua coordenação enquanto sistema durante a gestação, além de evidenciar o papel coordenado dos sncRNAs nas células germinativas paternas, na placenta e no sangue materno, fornecendo assim uma explicação sobre a influência do estresse no início da vida e os sistemas por ele afetados.